Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A corrida da marmota

por JL, em 24.04.19

No Dia da Marmota, celebrado a 2 de fevereiro, acredita-se que a saída da marmota da toca, no final do período hibernação, indicará o clima dos dias seguintes. Se ao sair o animal vir a sua sombra é sinal de continuação do tempo invernoso. Caso contrário, é porque irá começar o bom tempo. Esta tradição é o ponto de partida para o filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, que em português se chama “O Feitiço do Tempo”, no qual Bill Murray desempenha o papel de Phil, um jornalista egocêntrico e antipático, destacado para fazer uma reportagem em direto sobre os acontecimentos do Dia da Marmota, que, sem qualquer explicação plausível para a ocorrência, dá por si permanentemente preso no tempo. Dias após dia, Phil acorda sempre no mesmo dia 2 de fevereiro, ficando remetido à repetição contínua das mesmas rotinas profissionais e pessoais daquele dia muito peculiar.

O exercício é pouco mais do que vulgar, mas não podia deixar de o fazer. Se ficasse retido no dia de uma corrida, e tivesse oportunidade de escolher, qual seria a corrida que estaria disposto a repetir permanentemente, dias após dia? Para esta resposta, existirão um conjunto de variáveis diversas: a distância, o percurso, a paisagem, o clima habitual, o ambiente humano, a competitividade, assim como a partilha com outros atletas, mas também os abastecimentos, blocos de partida, prémios de finisher, troféus, diplomas, etc.

Assim, de memória, entre as poucas provas que conheço, consigo lembrar-me de uma boa dúzia de que gosto e que gostava de repetir. A Meia Maratona de Cascais, os 20 km da Marginal e a Maratona de Lisboa partilham uma paisagem de cortar a respiração, serpenteando junto ao mar e ao Tejo, mas também a Ultra-Maratona Atlântica e a Meia na Areia Analice Silva nos esmagam com a presença do oceano. Já a São Silvestre de Lisboa privilegia-nos com a exuberante iluminação natalícia. A Maratona e Meia Maratona de Lisboa têm generalíssimas medalhas, que nos fazem encher o peito de orgulho. Quanto a camisola, nenhuma prova batia a Adidas da Corrida do Benfica António Leitão, embora eu me renda às Kappa da Global Energy Race -Corrida pela Paz. Para velocistas, a Corrida de Santo António ou a Meia-Maratona dos Descobrimentos podem encher as medidas. Para os mais estoicos, melhor será a Meia-Maratona de Setúbal, Meia de S. João das Lampas ou Ultra-Maratona Atlântica.

No entanto, apesar de tantas e tão boas opções, a minha “corrida da marmota” é a Corrida Internacional 1º de Maio. São 15 km razoavelmente exigentes, desde o Parque de Jogos 1º de Maio até à Praça do Comércio e regresso de novo à pista do estádio. O percurso é belo e elegante, atravessando o coração de Lisboa, sem conceder facilidades. Tem a graciosidade de partir em pista, no Parque de Jogos 1º de Maio, o que lhe dá um élan especial. Depois, atravessa avenidas como a República e Fontes Pereira de Melo, desce a Avenida da Liberdade até à Praça do Comércio e regressa pela Avenida Almirante Reis. É uma subida exigente, mas equilibrada, que permite marcar uma cadência permanente. De seguida, breves passagens pelas avenidas de Roma, Igreja e Rio de Janeiro, até retornar à pista do 1º de Maio para uma sempre encantadora meia volta em pista até à meta…

Apesar de não ser uma distância oficial nas grandes provas, os 15 km acabam por ser uma solução equilibrada, por ultrapassar a efemeridade dos 10 km, sem exigir a preparação de uma maratona. Em termos de apoio, o facto de ser feriado nacional preenche as ruas com uma ambiência cálida e alegre, pressentindo-se também o aproximar das celebrações do Dia do Trabalhador. Assim, na subida da Almirante Reis sente-se muitas vezes aquele apoio que nos ajuda a galgar mais alguns metros. O preço também é amigável. Por fim, é sempre bom pensar que se está a acordar num feriado propenso a celebrações… Em termos negativos, tem de se apontar a ausência de medalha. Mas para quem dispense ou desvalorize este tipo de despojos materiais, a Corrida Internacional 1º de Maio afirma-se como uma das grandes provas da área metropolitana de Lisboa. É a minha eleita “corrida da marmota”, que conto repetir mais uma vez no feriado de 1 de maio deste ano. As inscrições estão abertas até ao final do dia de hoje.

Sobre a meta, uma nota final para o filme de Harold Ramis. É um ensaio humorístico sobre a repetição de oportunidades na relação com os outros. Se no início, a personagem de Bill Murray procura tirar vantagem da situação que está a viver para conseguir manipular para proveito próprio as relações com os outros, acaba por perceber que a única coisa que melhorará a sua vida e essas relações, é agir sobre si próprio, aproveitando todas essas oportunidades para ser uma pessoa melhor. Mas o melhor é mesmo vê-lo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:58

Os segredos mais bem guardados desvendam-se nos dias especiais. Por exemplo, quando olho para trás, penso que entre as maiores influências para as minhas jornadas de running estarão dois livros. É sobre o primeiro deles que tenciono escrever hoje, neste 23 de abril, Dia Mundial do Livro.

Não me recordo da razão que me levou a comprá-lo. Provavelmente estava já a germinar alguma ideia para qual buscava substrato. Mas, a aquisição do livro “Nascidos para Correr”, do jornalista Chistopher McDougall, é indubitavelmente uma das primeiras principais razões para ter começado a correr. Sei que não é um Shakespeare, um Proust ou um Dostoievsky. Não tem a elegância e a profundidade dos mestres do cânone, nem sequer de alguns contemporâneos, mas numa escrita com um estilo de inspiração jornalística, sobretudo a partir de géneros como a entrevista e a reportagem, este livro revela uma enorme destreza narrativa.

A partir de uma primeira story sobre uma incapacidade pessoal, partilhada por muitos, que é a fraca propensão do autor para o atletismo, o livro inicia uma investigação sobre históricos grandes corredores e provas, que nos leva a conhecer ultra-runners, ultra-trails e uma tribo lendária de corredores: os Tarahumara.

Assentando numa narrativa bipartida, divide-se entre uma história presente, que é a preparação de uma ultracorrida organizada para um reduzido grupo de superatletas, numa estrutura com um registo próximo da literatura de aventuras, em que não falta o discurso motivacional nem o humor, e as permanentes incursões em territórios da ciência e investigação sobre o corpo humano e a marcha evolutiva dos hominídeos. Além dos referidos Tarahumara, somos convidados a conhecer os caçadores-recolectores bosquímanos, as técnicas de rastreamento e os princípios da “caça de persistência”, no que poderá ter sido uma das razões de sobrevivência do nosso antepassado Homo erectus, numa verdadeira revisitação de muitas teorias sobre o bipedismo.

Não faltam ainda abordagens breves a dietas, técnica de corrida e calçado desportivo. Como se não bastasse, qual o outro livro que estabelece pontes entre a corrida e a poesia beat de Allen Ginsberg ou Jack Kerouac? E apresenta-nos ainda o “The Dharma Bums” (“Os Vagabundos do Dharma”), de Jack Kerouac, como possibilidade de texto de iniciação ao treino...

Por tudo isto, lê-se num ápice, sem esforço, e com muito prazer. Boas leituras!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:22

Nos últimos dois anos, tenho preparado o ano de running em torno de um conjunto de três ou quatro provas que seleciono com antecipação, ajustando depois as restantes em função destes objetivos. Nem sempre decorreu como planeado, aliás na maioria da vezes, mas vale a benévola intenção. Em 2018, preparei a época em torno da Meia Maratona do Ultra-Trail de São Mamede (22km), Ultra-Maratona Atlântica Melides – Tróia (43km) e Maratona de Lisboa. Este ano decidi-me pelos 20 km da Marginal, Meia-maratona da Lisbon Eco-Marathon (21km) e Maratona do Porto. Objetivos mais modestos, pois o tempo não é elástico, mas igualmente duas estreias e um regresso.

Não quer dizer que sejam as provas mais longas, nem sequer são aquelas em que tenho maiores ambições competitivas. São apenas vértices de organização em torno dos quais procuro fazer a gestão dos ritmos de treino da temporada. Por exemplo, em 2018 investi em alguns trails e provas de praia, como o Corre Praia, Meia Maratona Analice Silva, Wine Trail Ervideira, Trilhos da Malaposta, ao mesmo tempo que prolongava os treinos, de modo a preparar as duas primeiras. Depois, no Verão voltei a investir mais no treino de estrada, antes da Maratona de Lisboa.

Toda esta conversa apenas para dizer que a primeira etapa desta época, os 20 km da Marginal tiveram lugar no passado domingo, deixando-me com um sentimento agridoce. Esta foi apenas uma segunda participação. Em 2017, depois de alguma loucura competitiva em março e no início de abril, tive de parar algum tempo para recuperar e cheguei aos 20km da Marginal mais embalado pelo descanso do que pelos treinos. Completei o percurso com 1:30:50. Mais tarde, ainda nesse ano, regressei à mesma distância em Almeirim, com um terrível resultado (1:36:17), que ainda quero explorar aqui numa série de short-stories, inspiradas em Edgar Allan Poe, sobre as piores e mais tenebrosas experiências competitivas que enfrentei: cansaço, lesões, equipamento desadequado, etc. Narrativas de suspense e terror, com a promessa de serem verdadeiramente arrepiantes.

Mas, este ano, como ando a circular mais rápido, tracei como meta um tempo pelo menos abaixo de 1:25:00. Claro que se não tivesse estado noutra prova no dia anterior, a ambição poderia ser outra, mas insensato é uma espécie de middle-name que me acompanha ao longo da vida… Mesmo assim, quando na partida, encontrei o Paulo, que corre na Natureza e Ensina e também no Clube Amigos do Parque da Paz, e que está a preparar a Maratona de Aveiro (que por isso sensatamente não esteve na Milha Urbana de Corroios), eu ainda estava convencido de que teria capacidade para ignorar as dores musculares que senti durante o aquecimento e que poderia conseguir um registo a 4:10/km. Aliás, na breve troca de palavras que tivemos, fiquei convencido de que ele pretendia treinar um pouco abaixo deste ritmo e assumi uma partida mais à frente.

Mas o desenrolar da história inverteu os papéis dos protagonistas. Ao quilómetro dois estávamos lado a lado e o relógio marcava os 4:10/km que previra. Seguimos assim até próximo do quilómetro 10, quando comecei a sentir novamente dores musculares. Ele, em excelente forma, aumentou ligeiramente o ritmo, e eu, superlativamente “empenado”, comecei a quebrar um pouco. Assim, rapidamente se desenhou um fosso de algumas centenas de metros. Ao quilómetro 12 estava a sentir-me melhor, procurei recuperar, mas ao aproximar do Alto da Boa Viagem já o tinha perdido de vista novamente. Completei a subida em esforço e verifiquei que o relógio assinalava 4:11/km de média. A partir daqui, com um percurso muito mais acessível, seria possível recuperar algum tempo se o corpo deixasse. Entre os 16 e os 17 quilómetros ainda estive junto de alguns atletas, num ritmo entre 3:52 e 3:58/km, mas a partir daqui senti uma quebra assinalável, sem força, desacelerei bastante e acabei fazer o último quilómetro a um ritmo bastante lento, na casa dos 4:15/km. Não se pode classificar de mau um tempo de 1:24:30 para alguém que retirou seis minutos ao melhor que tinha feito nesta prova. Mas, atendendo a alguns tempos mais recentes, acredito que era possível fazer melhor… Ou talvez não. As classificações estão disponíveis no website da organização.

Não digo “nunca mais”, nem que retire daqui alguma lição, pois já antecipava para as minhas pernas o natural efeito do excesso da véspera, mas retirei dividendos de uma outra experiência complementar a esta. Ao terminar a prova, completamente escangalhado, com a perna esquerda a doer e a parecer mais curta do que a outra, convenci-me facilmente de que valeria a pena juntar-me à fila para as massagens do GFD Running. Foi uma espera longa e, por vezes, desesperante, mas recompensada por uma igualmente longa e impecável massagem, que me deixou descontraidamente leve, a caminhar tão suave e relaxadamente como se toda a cidade de Lisboa tivesse sido generosamente alcatifada como muitas das nossas casas em meados dos anos 80. Um obrigado especial aos excelentes profissionais do GFD Running que ali estiveram pacientemente a remediar os desarranjos musculares de uma horda de corredores aflitos. Cinco estrelas!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:31

"Accelerati incredibilus"

por JL, em 14.04.19

Para quem não conheça ou não reconheça, o pseudolatim do título vem emprestado da série de animação “Road Runner”, conhecida em Portugal por “Bip Bip” e no Brasil por “Papa-Léguas”, quando no genérico inicial as personagens são apresentadas num plano fixo, com uma legenda com o “nome científico” entre parêntesis. Esta cientificidade foi modificada ao longo das diferentes temporadas da série, mas quase sempre com nomes reconfortantemente cómicos e desconcertantes. Que melhor introdução para esse foguete das provas de atletismo local, que é a Milha, do que o generoso exemplo do galo-corredor americano que celebra 70 anos em 2019?

Três anos depois, regressei à Milha Urbana de Corroios com um nó no estômago e um olímpico ponto de interrogação a coroar a frase: O que é que eu estou a fazer aqui? Sou um Accelerati vulgaris, não gosto de provas rápidas, sinto-me um coiote, tenho outra prova amanhã ou ainda me vou lesionar, foram alguns dos pensamentos turvos que me ocorreram naqueles minutos iniciais de deriva pelas ruas de Corroios. Mas depois, uma cara conhecida aqui. Outra ali. Uns cumprimentos aqui e ali. Mais umas provas que estão a acontecer e das quais vemos um bocado. Depois, aquela multidão de gente de camisolas verdes e tudo acaba por se arrumar no seu sentido. Então, recordo-o com clareza: decidi vir a esta prova para voltar a correr pela Natureza Ensina e ajudar a equipa com alguns pontos modestos, e também para reencontrar caras que já não via há algum tempo. Enfim, límpido. Mesmo que signifique algum empeno nos 20 km Marginal...

Isto de correr em equipa tem muito de gregário, social e até qualquer coisa de tribal. Para quem não sabe sobre o que os corredores falam antes e depois das provas, que será a larga maioria da população mundial, aviso que também não o desvendarei. Deixo apenas a promessa de um dia destes editar um “Life of Runners”, ao estilo de David Attenborough, para desvendar as folhagens opacas que escondem os comportamentos desse estranho mamífero gregário que se aglomera socialmente em grupos de cores idênticas e que repete regularmente a bizarria de percorrer em grupo e em passo tão acelerado quanto possível um itinerário idêntico, às vezes circularmente, até um ponto em que todo o grupo interrompe o percurso e recomeça a socialização e hidratação. Um estranho comportamento, de aparência vagamente migratória, mas que pode encobrir outras razões que apenas o avanço científico poderá descortinar. Não perca: brevemente no seu computador…

Enfim, de regresso à Milha, depois deste devaneio de contornos histórico-televisivos, fiquei muito satisfeito com um 5º lugar no escalão, com o tempo de 5’35. De acordo com a estimativa oficial, corresponde a qualquer coisa como 3’28/km, mas o meu relógio conta-me que foi 3’19/km. Certamente, mais uns metros de curvas por fora e afins. Pessoalmente, não podia esperar mais. Mais experiente do que em anos anteriores, não me deixei levar por inconsciências e entusiasmos e tentei sempre seguir o meu ritmo, independentemente do que acontecia à minha volta. Não ganhei para o susto quando vi o relógio a marcar 3’/km, mas garanti que continuava a respirar mais ou menos controladamente. Perdi algumas posições que já não consegui voltar a recuperar, mas estava cumprido o objetivo que traçara. Mesmo assim, são oito pontos para a equipa, visto o quarto classificado ser um corredor externo ao Troféu. Um pecúlio inédito, que jamais imaginei alcançar numa Milha.

Enfim, reconheço que nunca serei um galo-corredor, e que esse papel tem donos, bastante mais merecedores, para uma série de extensa duração. Os meus parabéns ao Carlos, ao Mário, ao António, ao Hélder e ao Marco, da Natureza Ensina, que concluíram a nossa série nos cinco primeiros lugares, preenchendo brilhantemente a totalidade do pódio de Veteranos II e os dois primeiros de veteranos III. Mas, também o Luís, o Nelson, eu e o Ricardo preenchemos nove dos 15 primeiros lugares da série com a camisola verde da Natureza Ensina. Nome científico: Accelerati incredibilus.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:20

Sem palavras

por JL, em 13.04.19

Mais uma. O 2º GP de Atletismo do Clube do Sargento da Armada, quarta prova do Troféu de Atletismo “Mário Pinto Claro” 2019, decorreu no passado dia 7 de abril, na Base Naval de Lisboa, Arsenal do Alfeite.

Com partida e chegada na pista do CEFA, o percurso foi ligeiramente alterado em relação à primeira edição, tendo perdido cerca de 500 metros (7,2km), mas nem por isso concedeu maiores facilidades, tendo sido a esperada montanha-russa, que os participantes em provas aqui decorridas tão bem conhecem. Exige-se sacrifício, coração e sobretudo cabeça para gerir o esforço, sem ceder antes do fim.

Num fim-de-semana abundante de provas na região – 28º Corre Praia, na Costa da Caparica, 1ª Légua Cidade de Amora, no concelho do Seixal, e ainda a Corrida do Benfica António Leitão, em Lisboa – era previsível que se notassem algumas ausências. Porque a este pessoal do atletismo falta-lhe o dom da omnipresença. Assim foi. Alguns participantes habituais estiveram ausentes. Apesar de não se notar uma grande diferença de números, o nível competitivo não foi tão elevado. Talvez por isso, consegui novo triunfo no escalão, apesar de ter sido sensivelmente mais lento do que em provas anteriores.

Como sabia que o momento não era o melhor e conhecia o nível de dificuldade da corrida, decidi fazer uma prova mais conservadora. As possibilidades de me aproximar dos lugares da frente eram ínfimas, e implicaria sofrer um enorme desgaste. Por isso, optei por me poupar permanentemente, em particular nas descidas, mantendo alguma firmeza nas subidas, de modo a não permitir aproximações. Se bem o pensei, melhor o fiz. Terminei com 29:22, tendo ficado nos 20 primeiros. Ainda não consegui aceder à classificação definitiva.

Naturalmente, um resultado positivo, que me deixa satisfeito. No entanto, a satisfação do “atleta” contrasta com o dissabor do bloguer. Quando me iniciei nestes devaneios da escrita imaginava um conjunto de textos, mais ou menos humorísticos, mais ou menos cáusticos, sobre episódios caricatos e falhanços antológicos, como por exemplo quedas nas corridas, ambições precipitadas ou, em alternativa, textos de motivação e experiência. Uma espécie de Nanni Moretti das corridas. Como transformar o relato de um primeiro lugar numa experiência divertida e que não soe a pedantismo? Acho que me faltam as palavras para esse tipo de narrativa. Acho também que é por isso que o Woody Allen ou o Nanni Moretti fazem filmes sobre neuroses, crises existenciais e relações falhadas. Relatos de experiências que nos convocam enquanto iguais para uma espécie de solidariedade de espécie. É mais fácil. Atenção que sou fã e defensor acérrimo da obra de ambos!

Enfim, o que vale é que a Milha de Corroios está por horas e a minha relação com a velocidade é a de alguém que corre com as sapatilhas trocadas…

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 10:57

Ando às voltas com a literalidade. Olho para o título e penso-o de forma literal, mas também, até certo ponto, figurada. Pois, por “primeira Milha” não quero remeter para os primeiros passos, corridas ou treinos, de modo figurado, ao estilo de “calcei as sapatilhas e saí de casa para uma primeira milha à volta do parque”, conforme é comum em vários textos sobre corrida, mas sim efetivamente para a prova de Milha. O 1,60934 km da milha terrestre. Aquela distância que faz parte de “todos” os troféus de atletismo por esse país fora. Mas, por outro lado, como facilmente se percebe, a inconsciência do título não se refere a uma qualquer perda súbita e temporária de consciência nem tão pouco à psicanálise, mas sim a uma irreflexão. Uma incapacidade de antecipar e refletir sobre as características e dificuldades de uma atividade. Nada que me tire o sono.

No entanto, dormi mal na noite antes da primeira prova de Milha. A primeira de uma longa lista de duas. Não é que fosse um corredor inexperiente. Já corria há cerca de dois meses e esta era a minha sexta prova, numa precipitação de experiências diferentes de quem acaba de descobrir um brinquedo novo (3x10km, 15km, 3km).

Mas, como dizia antes, dormi mal. Cometi o erro de não parar de imaginar como seria correr uma prova tão curta. Dez dias antes, conseguira superar a barreira dos 4’/km na primeira prova de 3km do Noites Quentes do Restelo 2016 (11:51). Na minha cabeça parecia-me óbvio que os 1,609km da milha seriam ainda mais rápidos e imaginava-me a “voar” desde a partida até à meta. Poucos minutos em aceleração constante. Seguro e de sorriso nos lábios. Em parte, não estava distante da verdade, mas os 1,609km permitem-se a muitas cambiantes durante aqueles breves minutos.

A cobaia foi a XXIV Milha Urbana da Baía do Seixal, que contava para o Troféu Seixal. Quando me inscrevi desafiaram-me a participar pela Casa do Benfica no Seixal. Outra estreia. Pela primeira vez ia correr em representação de um clube. Algo que aumentava ainda mais a pressão dessa primeira vez. A quinta primeira vez em mês e meio: primeira corrida, primeiros 10 km, primeiros 15 km e primeiros 3 km.

No dia da prova, depois de receber o precioso dorsal, preocupei-me em aquecer bem. Sabia, pelo que tinha lido e não tanto por experiência própria, que as provas mais rápidas exigem um melhor aquecimento, pois requerem rendimento imediato e não queria quebrar logo na partida. Assim, procurei iniciar devagar e adensar os exercícios com uma gama alargada de movimentos, em progressiva aceleração. Uma amalgama de movimentos mais ou menos de aquecimento, resultantes de um misto de aprendizagem com os monitores do ginásio, leituras avulsas e memórias longínquas do futebol.

A prova corria-se por escalões como é habitual nestas distâncias e em cima da linha de partida juntavam-se os principais favoritos. Arrumei-me numa segunda ou terceira linha do lado direito e recapitulei o objetivo: arrancar rápido e tentar acompanhar minimamente o ritmo nos primeiros metros. De seguida, gerir um pouco na zona intermédia e fazer um forcing na segunda metade. Tantos planos para tão poucos recursos… A explosão do tiro de partida pôs em marcha uma avalanche de adrenalina que se precipitou no asfalto. Para mim, bastaram cinco segundos, talvez nem tanto, para perceber que o ritmo era demasiado rápido para as minhas competências. Mesmo assim, queria que o fosso não fosse demasiado grande e fiz um esforço para impor velocidade. Mas era demasiado intenso. Ao fim de 500 metros já só pensava na meta e já nem a classificação interessava. Bastava-me um pouco de ar... “Corri” sem forças os últimos metros, deixando-me ultrapassar por dois ou três atletas mais astutos e suspirei de alívio com a chegada. Descobri que 1,609km podem ser muito mais desgastantes do que 10km. Completei o percurso com modestos 5’53 e percebi que não tinha futuro na velocidade. Nunca mais!

Dois meses depois, na XI Milha Urbana de Corroios, esqueci a decisão algo precipitada e repeti a distância em 5’46, na segunda das duas experiências na Milha. Um pouco mais rápido, mas igualmente sofrido, o registo de Corroios deixou-me ainda mais consciente dos meus poucos recursos para estas provas rápidas, decidindo-me a adiar para mais tarde outras participações, mas sem vontade de desistir. Contudo, umas vezes por isto e outras por aquilo, e ainda mais outras por aqueloutro, nunca mais tive disponibilidade voltar a correr esta distância. Veremos quando se dará o regresso… Será 2019? A XIII Milha de Corroios está à porta…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:07

Mais de três meses e meio depois, finalmente regressou à estrada o Troféu “Mário Pinto Claro” 2018-19. Com o 26º Grande Prémio de Atletismo da Charneca de Caparica, no passado dia 10 de março. Antes, a última prova havia sido o Troféu da Caparica 2018, em 18 de novembro. Apenas uma semana depois da primeira competição: 2º Grande Prémio de São Martinho.

As duas primeiras, provas difíceis, de sobe e desce constante, mas que me haviam corrido bastante bem, até porque aprecio esse tipo de percurso mais sacrificial do que veloz. Também porque nesse mês de novembro estava a atravessar uma fase bastante boa, que veio a eclodir na minha melhor prestação na meia maratona, com 1:26:04 nos Descobrimentos. Mas, três meses e meio depois, como encarar o Grande Prémio de Atletismo da Charneca de Caparica? Neste intervalo de tempo tinha andado a correr menos, com menos provas e em registos mais conservadores. Até a própria confiança já não era a mesma de novembro passado…

No passado, apenas participei uma vez no Grande Prémio de Atletismo da Charneca de Caparica. Em 2018, ainda em processo de recuperação após uma breve paragem de duas semanas, conseguira uma prestação razoável, com 32’38, alcançando o 4º lugar no escalão. Por isso, tinha expectativa de conseguir um registo dentro dos mesmos parâmetros este ano.

Assim, assumi a vontade de partir não distante da cabeça da corrida e de adotar um ritmo abaixo dos 4/km. À partida coloquei-me logo numa linha a seguir aos favoritos e procurei manter esse registo de segundas linhas, que me permitia rolar entre os primeiros 20. Acabei por terminar com 31’03, segundo o tempo oficial, com menos umas migalhas no meu relógio, e alcançar o meu primeiro 1º lugar no escalão, após um despique renhido com um atleta do GD Independente, nos últimos 500 metros. Valeu um último fôlego, guardado para esta eventualidade extremamente rara, que me deu forças para a aceleração final.

Um resultado que me deixa bastante satisfeito. Ainda recentemente celebrava aqui um triunfo e já me posso vangloriar novamente. Ainda para mais, com a satisfação extra de este ano estar a representar o CA Amigos do Parque da Paz no Troféu "Mário Pinto Claro", e qualquer pontinho ser um contributo para ajudar a classificação coletiva.

A próxima prova é agora no próximo dia 7 de abril, com o 2º Grande Prémio de Atletismo do Clube do Sargento da Armada. Mais uma montanha-russa a sacrificar velocistas e a reabilitar trail-runners e trepadores afins.

Regresso, no entanto, ao início para deixar novamente o reparo sobre tão longos intervalos entre as provas de um Troféu. Não é possível manter um padrão de competitividade interessante, com paragens tão prolongadas. Era essencial que o Troféu conseguisse manter alguma regularidade mínima entre as diversas provas. Contudo, sei também que é mais fácil criticar do que fazer e reconheço-me mais próximo das fronteiras do erro do que da virtude, quando, sem muito tempo para escrever, escrevo e publico um texto sobre uma prova que decorreu há mais de 20 dias… Mas vamos tentar ser mais rápidos para a próxima…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:45


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mensagens


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D