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Crónica de uma desistência

por JL, em 15.05.19

À primeira vista não parece até porque é muito mais comum do que pensamos. Na Verdade, todos nós, aqui e ali, ao longo da vida, provavelmente desistimos de qualquer coisa. De sonhos, de objetivos, de projetos, de corridas… Mas o ato de desistir revela-se uma jornada bastante solitária.

O dia 5 de maio era, desde há muito, um gigantesco gatafunho vermelho em redor do respetivo número no calendário de parede. Uma expectativa desportiva. Uma das três provas-eixo delineadas para o ano de 2019. Mas também um último dia de mais uma jornada desta minha tão coerente inconsciência, com três competições desgastantes, encarrapitadas umas em cima das outras em cinco dias. Foi a 38ª Corrida Internacional 1º de Maio (15 km), a 4ª Milha Urbana Alberto Chaíça (1,609 km) e agora o Corredor Verde da Lisbon Eco Marathon (21 km).

Talvez um pouco cansado, mas fisicamente bem, encarava com inusual confiança estes 21km pelo Parque de Monsanto. Tinha treinado razoavelmente bem para a distância e o teste dos 15km da Corrida Internacional 1º de Maio tinha-o comprovado. Apesar de uma azáfama de véspera que quase não me permitiu pensar ou preparar a prova, bastou-me começar a aquecer um pouco no Parque Eduardo VII para perceber que o dia tinha tudo para correr bem.

A partida, como sempre, foi uma precipitação de adrenalina e uma euforia desregrada. Parte-se como se fosse apenas um sprint até ao virar da esquina mais um aceno para o autocarro que nos convida a entrar e não como o início dos longos 21km. Como tinha objetivos concretos para esta prova, assumi-me entre os primeiros 30. Ao fim de algumas centenas de metros, olho para o relógio, que até funcionou, e vejo números abaixo de 4’/km. Tudo normal. Depois, pretendia estabilizar entre 4 e 4’10/km a rolar e subir como fosse possível, que aí não há margem para esquisitices.

Não tinha decorrido ainda uma milha, descíamos em bom ritmo o Jardim Amnistia Internacional, quando a senti. Uma dor aguda na zona dos adutores na perna esquerda. Em corrida, é normal conviver com dores, mas, por isso, já as conhecemos minimamente e esta apresentava-se como uma pouco atrativa novidade aguda e intensa. O primeiro impulso dizia-me: “Continua. Mais uns quilómetros e pode ser que passe”. Mas havia ali qualquer coisa de novo. Abrandei bastante a ver se a coisa passava, mas nada. Sempre pior. Uma visita indesejada que insiste em permanecer. Parei. “Pode ser que ao voltar a correr já tenha passado”. Nada. Tudo na mesma. Prossegui assim, neste pára-arranca angustiado a “ver se ainda dá” até aos 3,7km, quando decidi que não valia a pena continuar. Afinal, iria ser penoso fazer mais 17 km naquele estado para receber uma medalha verde…

Antes, às vezes imaginava-me, daqui a uns anos, a partilhar daquele discurso de outros atletas que afirmam que em milhares de corridas nunca desistiram de uma. Um prodígio de resistência e força de vontade. Por isso, nunca nos preparamos para a desistência. Aliás, como nunca tinha desistido, descobri que desistir pode assemelhar-se a algo bastante caricato, sobretudo quando ocorre nos primeiros quilómetros de uma prova relativamente longa.

Como conseguia andar sem problemas e ainda estava próximo da partida, decidi fazer devagar o caminho inverso. Mas, para isso, tive de me cruzar com a maioria do pelotão dos 21km e ainda com a totalidade do pelotão dos 12km. Eles e elas ainda repletos de esperança e vigor para uma prova que estava a começar, eu com o ar pateta de um tipo que se enganou no caminho ou que insiste em ir em sentido contrário na hora de ponta. Parei e encolhi-me na berma várias vezes para não atrapalhar a passagem, aqui e ali lancei uns incentivos acanhados, feitos à semelhança do estado de espírito, e regressei vagarosamente à linha de partida, onde bebi uma água, comi uma maçã e fiquei sentado a assistir à alegria daqueles que terminavam.

 Mais tarde, em casa rodeei-me do google e do meu Gray’s Anatomy, mas perdi-me em dúvidas entre o sartório, o grácil ou o adutor longo. Talvez nenhum dos três, pois faltam-me conhecimentos na área. Sem grandes recursos, besuntei-me em abundância com diclofenac e ritualizei a tarde de domingo com gelo. Nos dias seguintes ainda andei com a sensação de ter uma perna mais curta do que a outra ou de a perna esquerda poder subitamente desatarraxar-se e tombar algures pelo caminho, mas progressivamente a coisa foi-se compondo. Sem treinos, nem quaisquer aventuras, apenas a aguardar dias melhores.

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publicado às 14:39

Numa breve pesquisa online sobre a “milha”, aquilo que nos é devolvido é um conjunto de páginas sobre inúmeros programas de acumulação de milhas para viajar… Mas, neste caso, todas as milhas a que me refiro apenas se acumulam nas pernas, embora, à sua maneira, também possam servir para para o mesmo efeito.

Já anteriormente mencionei aqui anteriores experiências em prova de Milha em dois textos (A primeira Milha de um corredor inconsciente e “Accelerati Incridibilus”) com relatos sobre a primeira participação numa prova com esta distância e, posteriormente, sobre o regresso em 2019. Esta é apenas minha quarta participação nos breves e intensos 1,609km desta distância que realmente aprecio com pouco entusiasmo.

A 4ª Milha Urbana Alberto Chaíça, quinta prova do Toféu Almada “Mário Pinto Claro” 2018-19, surge em homenagem a este conhecido atleta almadense, que foi 8º classificado na Maratona dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004 (2:14:17) e 4º classificado no Campeonato do Mundo, em 2003, em Paris, com 2:09:25. Em Portugal, foi campeão nacional dos 10 mil metros (29:04:50), em junho de 2003, mas com um recorde de 28:06 em pista e de 28:43, em estrada. Marcas estratosféricas para os comuns mortais que se alinharam à partida e que os tempos finais se encarregaram de comprovar.

Para uma Milha, esta prova do Monte Kapa – Escola de Desporto tem logo o grande inconveniente de ter uma subida relativamente prolongada e um pouco acentuada na Rua Alfazina de Cima, pouco após a partida, que convida a uma gestão de esforço mais cuidadosa. Eu, como receio sempre os excessos iniciais, mais uma vez parti com o cuidado de não imprimir um ritmo demasiado intenso e com a intensão de acelerar essencialmente na segunda metade da prova, a seguir à inversão, já na fase de descida. Mas rapidamente comprovei que na “cabeça” da prova ninguém estava muito preocupado com gestões e simplesmente aceleravam desenfreadamente. Não consegui medir distâncias, pois mais uma vez o relógio falhou, mas calculo que a segunda metade da milha foi muito mais rápida. Pelo menos assim me pareceu e permitiu-me recuperar dois ou três lugares, para terminar em 4º no escalão, com um tempo de 5:33.

Está cumprida mais uma etapa no Troféu "Mário Pinto Claro", que prossegue dia 12 de maio com o Corta-Mato Rui Duarte Silva, organizado pelo Clube de Atletismo Amigos do Parque da Paz.

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publicado às 10:32

Como se fosse a primeira vez

por JL, em 02.05.19

Era dia 13 de abril e estávamos em pleno Estádio da Luz, no intervalo do Benfica – Bayern Munique, com o marcador a assinalar 1-1, na partida da segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, quando partilhei com alguns amigos a minha inusitada e recente experiência na Corrida do Benfica António Leitão, três dias antes. Natural reação de genuíno espanto, mas depois, refeitos e mais acomodados à ideia, o José, o Mário e Ilídio desafiaram-me à real prova de valentia: “Se pensas que consegues correr, então agora tens de tentar os 15 km na Corrida Internacional 1º de Maio!” Tão conhecedor do universo das competições de atletismo popular como de astrofísica ou de agricultura sintrópica, questionei-os desconfiadamente sobre essa tal prova que se adivinhava na próxima esquina da mudança de mês. Mas soube apenas que era organizada pela CGTP no dia 1 de maio, pois a segunda parte estava a começar.

Em casa, curioso acerca da conversa do intervalo, googlei com sucesso. Ali estava ela! Ainda a tempo de inscrições. Não me alongo sobre recuos e indecisões, devido ao receio de fazer 15 km, avançando diretamente para a linha de partida desse 1º de maio de 2016. Nesse momento, ainda não sabia que estava na pista de uma prova que se tornaria uma das minhas favoritas. Nesse ano, nessa minha segunda experiência competitiva, conclui espantado os 15 km em 1:09:44. Uma surpresa que não me fez esquecer a dificuldade da subida da Almirante Reis, em particular aquele troço final junto da João XXI… Depois disso, já não houve pernas que me valessem para qualquer tipo de aceleração e limitei-me a arrastar-me até ao final.

Em 2017, regressei mais ousado e reforçado com umas sapatilhas Supernova Glide Boost 7, descobertas em promoção, que me aconchegaram os pés na 1:04:33 de duração do percurso. Cinco minutos mais rápido! Tudo correu bem e até a Almirante Reis me pareceu mais plana. No ano seguinte, em 2018, já acreditava estar noutro patamar, e apetrechado com uns Adios 3, acelerei para 1:01:50, pulverizando o meu melhor tempo dos 15 km, alcançado na Corrida dos Sinos desse ano, e retirando 2:40 ao melhor que tinha feito no anterior passeio pela Almirante Reis.

Assim, não havia volta a dar e chegava a 2019 bastante motivado para a quarta participação consecutiva. Razões para isso? Muito poucas. Como me falta o tempo e as responsabilidades e deveres parecem multiplicar-se, deixei de frequentar o ginásio. Tento compensar com mais treino em estrada, mas já desisti de seguir qualquer tipo de plano, limitando-me a treinar como e quando posso, nem que sejam uns minutos perto de casa, mais ou menos de acordo com algumas coisas que li aqui e ali. Apenas tento aumentar bastante as distâncias de treino em preparação para as provas mais longas e desta feita até fiz uns exercícios em rampas bastante mal-amanhados… No entanto, o corpo parece que se vai modelando de acordo com a prática regular. O que se reflete nas provas.

Assim, conclui a minha quarta participação na Corrida Internacional 1º de Maio com 1:00:54, numa prova que correu razoavelmente bem, apesar do calor e do vento, e, claro, daquela Almirante Reis que continua seriamente a antipatizar comigo. Aliás, esta prova foi como que um regresso às dificuldades da primeira participação, pois há algum tempo que não terminava tão exausto. Além do vento forte, sol e calor, aquela sensação dos músculos estarem prestes a ceder, e até o relógio resistiu a colaborar. Não consegui o GPS, que me permite gerir mais equilibradamente as provas, tendo feito todo percurso de acordo com o feeling do momento, como fazia nas primeiras edições. Por acaso, correu bem, mas receio sempre entusiasmar-me demasiado sem o aviso do relógio e gerir mal o esforço.

Algumas palavras finais para o nível de competitividade desta prova, que é uma clássica com história. Apesar de um menor número de participantes que em anos anteriores, voltaram a registar-se resultados interessantes, com o vencedor, Pedro Arsénio (CF Belenenses), a terminar com 48:21. Em femininos, Daniela Sousa (GD Estreito), conseguiu 56:56. As classificações estão disponíveis no website da Xistarca.

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publicado às 10:24


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