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Ando às voltas com a literalidade. Olho para o título e penso-o de forma literal, mas também, até certo ponto, figurada. Pois, por “primeira Milha” não quero remeter para os primeiros passos, corridas ou treinos, de modo figurado, ao estilo de “calcei as sapatilhas e saí de casa para uma primeira milha à volta do parque”, conforme é comum em vários textos sobre corrida, mas sim efetivamente para a prova de Milha. O 1,60934 km da milha terrestre. Aquela distância que faz parte de “todos” os troféus de atletismo por esse país fora. Mas, por outro lado, como facilmente se percebe, a inconsciência do título não se refere a uma qualquer perda súbita e temporária de consciência nem tão pouco à psicanálise, mas sim a uma irreflexão. Uma incapacidade de antecipar e refletir sobre as características e dificuldades de uma atividade. Nada que me tire o sono.

No entanto, dormi mal na noite antes da primeira prova de Milha. A primeira de uma longa lista de duas. Não é que fosse um corredor inexperiente. Já corria há cerca de dois meses e esta era a minha sexta prova, numa precipitação de experiências diferentes de quem acaba de descobrir um brinquedo novo (3x10km, 15km, 3km).

Mas, como dizia antes, dormi mal. Cometi o erro de não parar de imaginar como seria correr uma prova tão curta. Dez dias antes, conseguira superar a barreira dos 4’/km na primeira prova de 3km do Noites Quentes do Restelo 2016 (11:51). Na minha cabeça parecia-me óbvio que os 1,609km da milha seriam ainda mais rápidos e imaginava-me a “voar” desde a partida até à meta. Poucos minutos em aceleração constante. Seguro e de sorriso nos lábios. Em parte, não estava distante da verdade, mas os 1,609km permitem-se a muitas cambiantes durante aqueles breves minutos.

A cobaia foi a XXIV Milha Urbana da Baía do Seixal, que contava para o Troféu Seixal. Quando me inscrevi desafiaram-me a participar pela Casa do Benfica no Seixal. Outra estreia. Pela primeira vez ia correr em representação de um clube. Algo que aumentava ainda mais a pressão dessa primeira vez. A quinta primeira vez em mês e meio: primeira corrida, primeiros 10 km, primeiros 15 km e primeiros 3 km.

No dia da prova, depois de receber o precioso dorsal, preocupei-me em aquecer bem. Sabia, pelo que tinha lido e não tanto por experiência própria, que as provas mais rápidas exigem um melhor aquecimento, pois requerem rendimento imediato e não queria quebrar logo na partida. Assim, procurei iniciar devagar e adensar os exercícios com uma gama alargada de movimentos, em progressiva aceleração. Uma amalgama de movimentos mais ou menos de aquecimento, resultantes de um misto de aprendizagem com os monitores do ginásio, leituras avulsas e memórias longínquas do futebol.

A prova corria-se por escalões como é habitual nestas distâncias e em cima da linha de partida juntavam-se os principais favoritos. Arrumei-me numa segunda ou terceira linha do lado direito e recapitulei o objetivo: arrancar rápido e tentar acompanhar minimamente o ritmo nos primeiros metros. De seguida, gerir um pouco na zona intermédia e fazer um forcing na segunda metade. Tantos planos para tão poucos recursos… A explosão do tiro de partida pôs em marcha uma avalanche de adrenalina que se precipitou no asfalto. Para mim, bastaram cinco segundos, talvez nem tanto, para perceber que o ritmo era demasiado rápido para as minhas competências. Mesmo assim, queria que o fosso não fosse demasiado grande e fiz um esforço para impor velocidade. Mas era demasiado intenso. Ao fim de 500 metros já só pensava na meta e já nem a classificação interessava. Bastava-me um pouco de ar... “Corri” sem forças os últimos metros, deixando-me ultrapassar por dois ou três atletas mais astutos e suspirei de alívio com a chegada. Descobri que 1,609km podem ser muito mais desgastantes do que 10km. Completei o percurso com modestos 5’53 e percebi que não tinha futuro na velocidade. Nunca mais!

Dois meses depois, na XI Milha Urbana de Corroios, esqueci a decisão algo precipitada e repeti a distância em 5’46, na segunda das duas experiências na Milha. Um pouco mais rápido, mas igualmente sofrido, o registo de Corroios deixou-me ainda mais consciente dos meus poucos recursos para estas provas rápidas, decidindo-me a adiar para mais tarde outras participações, mas sem vontade de desistir. Contudo, umas vezes por isto e outras por aquilo, e ainda mais outras por aqueloutro, nunca mais tive disponibilidade voltar a correr esta distância. Veremos quando se dará o regresso… Será 2019? A XIII Milha de Corroios está à porta…

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publicado às 10:07


6 comentários

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De MJP a 12.04.2019 às 10:47

Gostei muito do que li!
Cá no Algarve, há uma prova muito "giro" (que adoro acompanhar):
as "X Milhas do Guadiana"!
https://www.aaalgarve.org/index.php/78-artigos-da-pagina-principal/1607-x-milhas-do-guadiana-unem-portugal-e-espanha
Fica o "convite"!
Dia Feliz!
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De MJP a 12.04.2019 às 10:48

Ups!!!... *"gira"
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De JL a 12.04.2019 às 11:59

Por acaso, há vários aspetos que me agradam nessa prova, nomeadamente ser transfronteiriça, ser organizada pelos municípios e por coletividades locais, e por ter a localização que tem. Mas, este ano parece-me difícil. Tenho pouco tempo e por isso a maioria do calendário serão pequenas provas na Península de Setúbal, que não impliquem grande investimento de tempo e recursos. Entre as poucas exceções está a Maratona do Porto, que se corre a 3 de novembro... O que para mim é demasiado próximo para depois fazer uma prova de 18 km... Mas estou certo que a irei fazer :)

Um bom dia!!
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De MJP a 12.04.2019 às 12:11

Eu não sou praticante de atletismo (sou, apenas, grande apreciadora da modalidade!)... mas tenho vários amigos e amigas que fazem esta prova e adoram!
Continuação de bom dia!
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De Mãe Maria a 16.04.2019 às 00:09

Vou fazendo umas corridas diárias no ginásio, outras em provas, mas sem grandes desejos e metas a alcançar. Já passou a juventude para esses objetivos. Boas corridas
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De JL a 16.04.2019 às 14:29

Obrigado.
Creio que todas as metas são boas metas, pois o que interessa é o percurso.
Quando se corre diariamente no ginásio, corre-se mais do que a larga maioria, e a corrida tem a característica ímpar de ter maior longevidade do que muitos outros desportos...
Bons treinos e boas corridas!!

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