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"Penso adesivo", mas não existo

por JL, em 05.02.19

Recordo-me de, há alguns anos, discutir nas aulas de jornalismo a dificuldade de se escrever um bom título. A titulação é uma arte exigente e difícil. É por ter estado atento a essas aulas que me deixam alguma nostalgia, que posso afirmar com convicção que o título acima não é um bom título. Não sei se é mau… Mas bom não é de certeza.

É que tomar de empréstimo a máxima cartesiana é meio caminho andado para ser interpretado como pretensioso e afastar alguns leitores, incompatíveis com a filosofia ou com o próprio Descartes. Depois, porque realizar um trocadilho humorístico com essa máxima é, na melhor das hipóteses, algo de gosto muito duvidoso, e assim uma forte possibilidade de afastar outros leitores, que apreciam filosofia e o próprio Descartes. Por isso, sobram apenas a família e alguns amigos como únicos indefetíveis leitores… Mas talvez já regressemos ao título.

Enfim, corredor avisado não comete os mesmos erros. Comete outros. Ao pisar a relva e terra batida do Parque do Serrado, na Amora, para correr o 8º Corta-mato do Núcleo de Amigos de Cabeço de Vide, sabia que não estava na melhor forma nem tinha escolhido as melhores sapatilhas para o piso que ainda parecia húmido.  Por isso, depois de um arranque demasiado rápido na semana anterior, empenhei-me em partir em ritmo mais moderado e desfrutar dos confortos de uma manhã fria, mas solarenga. No entanto, o entusiasmo da corrida rapidamente apaga estes pensamentos mais avisados e, às duas por três, estava no encalço de mais um atleta, quando senti o pé direito tropeçar numa raiz sobressaída.

É um segundo que parece uma longa-metragem… A perna esquerda devia ter reagido rapidamente, encontrando o chão firme e o equilíbrio, mas onde é que estava? Provavelmente enrolada na outra, como dois fios de esparguete enamorados e à espera do dia 14…. Certo é que não sei a resposta e faltam-me provas sobre o que aconteceu. Pois, apesar de a prova estar repleta de fotógrafos, não encontro uma imagem do sucedido. Nada com o pé encalhado na raiz, nem com o voo desajeitado e de pernas torcidas e menos ainda com a aterragem forçada, sem graça nem elegância, na areia pouco delicada da pista. Uma absoluta invisibilidade. Terá acontecido? Terá sido imaginação? O cotovelo e a perna direita, que comprovaram a existência de atrito entre dois corpos sólidos, provaram-me que sim, exibindo-se artisticamente decorados com dolorosas escoriações de tom avermelhado.

Erguendo-me do pó, descobri ainda uma dor incisiva no quadricípite esquerdo, que quase não me deixava andar. No entanto, alguns passos descoordenados, mas embalados pelos músculos quentes da corrida, uma tentativa de aumento de ritmo razoavelmente sucedida e estava na pista outra vez. Meio coxo, combalido, a fazer caretas ainda mais feias do que é costume, até atravessar a meta. Aí, conselho amigo indicou-me o carro dos Bombeiros Voluntários da Amora, onde recebi prestável auxílio, traduzido em borrifadelas de antisséptico e “spray milagroso”. Prestem-se as devidas homenagens a esses heróis que são os bombeiros voluntários!

Mais tarde, em casa, li que o famigerado penso adesivo do título ajuda a cicatrizar de modo mais eficiente, reduzindo o risco de infeção, sendo um mito a ideia de que deixar feridas e arranhões a descoberto, ajuda a que este processo decorra mais rapidamente. Ignoro olimpicamente mais este conselho, porque com esta jornada não combinam adjetivos como “rápido”. Nem nos pensos…

Não sei em que posição terminei, pois não consegui ver as classificações. O meu relógio marcava 18’19 quando o desliguei após a chegada. O website do Troféu de Atletismo do Seixal não tem resultados disponíveis. Também não encontro informação dos organizadores da prova. E ainda aguardo que me enviem as classificações, mas sem sorte até ao momento. Parece que fiquei esquecido ou que não existo…

Falta ainda a explicação sobre o título... Ou não. Tirem-se as conclusões que se quiser. Ficamos com a dúvida cartesiana: "Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j'existe".

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publicado às 11:24



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