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Como se fosse a primeira vez

por JL, em 02.05.19

Era dia 13 de abril e estávamos em pleno Estádio da Luz, no intervalo do Benfica – Bayern Munique, com o marcador a assinalar 1-1, na partida da segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, quando partilhei com alguns amigos a minha inusitada e recente experiência na Corrida do Benfica António Leitão, três dias antes. Natural reação de genuíno espanto, mas depois, refeitos e mais acomodados à ideia, o José, o Mário e Ilídio desafiaram-me à real prova de valentia: “Se pensas que consegues correr, então agora tens de tentar os 15 km na Corrida Internacional 1º de Maio!” Tão conhecedor do universo das competições de atletismo popular como de astrofísica ou de agricultura sintrópica, questionei-os desconfiadamente sobre essa tal prova que se adivinhava na próxima esquina da mudança de mês. Mas soube apenas que era organizada pela CGTP no dia 1 de maio, pois a segunda parte estava a começar.

Em casa, curioso acerca da conversa do intervalo, googlei com sucesso. Ali estava ela! Ainda a tempo de inscrições. Não me alongo sobre recuos e indecisões, devido ao receio de fazer 15 km, avançando diretamente para a linha de partida desse 1º de maio de 2016. Nesse momento, ainda não sabia que estava na pista de uma prova que se tornaria uma das minhas favoritas. Nesse ano, nessa minha segunda experiência competitiva, conclui espantado os 15 km em 1:09:44. Uma surpresa que não me fez esquecer a dificuldade da subida da Almirante Reis, em particular aquele troço final junto da João XXI… Depois disso, já não houve pernas que me valessem para qualquer tipo de aceleração e limitei-me a arrastar-me até ao final.

Em 2017, regressei mais ousado e reforçado com umas sapatilhas Supernova Glide Boost 7, descobertas em promoção, que me aconchegaram os pés na 1:04:33 de duração do percurso. Cinco minutos mais rápido! Tudo correu bem e até a Almirante Reis me pareceu mais plana. No ano seguinte, em 2018, já acreditava estar noutro patamar, e apetrechado com uns Adios 3, acelerei para 1:01:50, pulverizando o meu melhor tempo dos 15 km, alcançado na Corrida dos Sinos desse ano, e retirando 2:40 ao melhor que tinha feito no anterior passeio pela Almirante Reis.

Assim, não havia volta a dar e chegava a 2019 bastante motivado para a quarta participação consecutiva. Razões para isso? Muito poucas. Como me falta o tempo e as responsabilidades e deveres parecem multiplicar-se, deixei de frequentar o ginásio. Tento compensar com mais treino em estrada, mas já desisti de seguir qualquer tipo de plano, limitando-me a treinar como e quando posso, nem que sejam uns minutos perto de casa, mais ou menos de acordo com algumas coisas que li aqui e ali. Apenas tento aumentar bastante as distâncias de treino em preparação para as provas mais longas e desta feita até fiz uns exercícios em rampas bastante mal-amanhados… No entanto, o corpo parece que se vai modelando de acordo com a prática regular. O que se reflete nas provas.

Assim, conclui a minha quarta participação na Corrida Internacional 1º de Maio com 1:00:54, numa prova que correu razoavelmente bem, apesar do calor e do vento, e, claro, daquela Almirante Reis que continua seriamente a antipatizar comigo. Aliás, esta prova foi como que um regresso às dificuldades da primeira participação, pois há algum tempo que não terminava tão exausto. Além do vento forte, sol e calor, aquela sensação dos músculos estarem prestes a ceder, e até o relógio resistiu a colaborar. Não consegui o GPS, que me permite gerir mais equilibradamente as provas, tendo feito todo percurso de acordo com o feeling do momento, como fazia nas primeiras edições. Por acaso, correu bem, mas receio sempre entusiasmar-me demasiado sem o aviso do relógio e gerir mal o esforço.

Algumas palavras finais para o nível de competitividade desta prova, que é uma clássica com história. Apesar de um menor número de participantes que em anos anteriores, voltaram a registar-se resultados interessantes, com o vencedor, Pedro Arsénio (CF Belenenses), a terminar com 48:21. Em femininos, Daniela Sousa (GD Estreito), conseguiu 56:56. As classificações estão disponíveis no website da Xistarca.

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publicado às 10:24

A corrida da marmota

por JL, em 24.04.19

No Dia da Marmota, celebrado a 2 de fevereiro, acredita-se que a saída da marmota da toca, no final do período hibernação, indicará o clima dos dias seguintes. Se ao sair o animal vir a sua sombra é sinal de continuação do tempo invernoso. Caso contrário, é porque irá começar o bom tempo. Esta tradição é o ponto de partida para o filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, que em português se chama “O Feitiço do Tempo”, no qual Bill Murray desempenha o papel de Phil, um jornalista egocêntrico e antipático, destacado para fazer uma reportagem em direto sobre os acontecimentos do Dia da Marmota, que, sem qualquer explicação plausível para a ocorrência, dá por si permanentemente preso no tempo. Dias após dia, Phil acorda sempre no mesmo dia 2 de fevereiro, ficando remetido à repetição contínua das mesmas rotinas profissionais e pessoais daquele dia muito peculiar.

O exercício é pouco mais do que vulgar, mas não podia deixar de o fazer. Se ficasse retido no dia de uma corrida, e tivesse oportunidade de escolher, qual seria a corrida que estaria disposto a repetir permanentemente, dias após dia? Para esta resposta, existirão um conjunto de variáveis diversas: a distância, o percurso, a paisagem, o clima habitual, o ambiente humano, a competitividade, assim como a partilha com outros atletas, mas também os abastecimentos, blocos de partida, prémios de finisher, troféus, diplomas, etc.

Assim, de memória, entre as poucas provas que conheço, consigo lembrar-me de uma boa dúzia de que gosto e que gostava de repetir. A Meia Maratona de Cascais, os 20 km da Marginal e a Maratona de Lisboa partilham uma paisagem de cortar a respiração, serpenteando junto ao mar e ao Tejo, mas também a Ultra-Maratona Atlântica e a Meia na Areia Analice Silva nos esmagam com a presença do oceano. Já a São Silvestre de Lisboa privilegia-nos com a exuberante iluminação natalícia. A Maratona e Meia Maratona de Lisboa têm generalíssimas medalhas, que nos fazem encher o peito de orgulho. Quanto a camisola, nenhuma prova batia a Adidas da Corrida do Benfica António Leitão, embora eu me renda às Kappa da Global Energy Race -Corrida pela Paz. Para velocistas, a Corrida de Santo António ou a Meia-Maratona dos Descobrimentos podem encher as medidas. Para os mais estoicos, melhor será a Meia-Maratona de Setúbal, Meia de S. João das Lampas ou Ultra-Maratona Atlântica.

No entanto, apesar de tantas e tão boas opções, a minha “corrida da marmota” é a Corrida Internacional 1º de Maio. São 15 km razoavelmente exigentes, desde o Parque de Jogos 1º de Maio até à Praça do Comércio e regresso de novo à pista do estádio. O percurso é belo e elegante, atravessando o coração de Lisboa, sem conceder facilidades. Tem a graciosidade de partir em pista, no Parque de Jogos 1º de Maio, o que lhe dá um élan especial. Depois, atravessa avenidas como a República e Fontes Pereira de Melo, desce a Avenida da Liberdade até à Praça do Comércio e regressa pela Avenida Almirante Reis. É uma subida exigente, mas equilibrada, que permite marcar uma cadência permanente. De seguida, breves passagens pelas avenidas de Roma, Igreja e Rio de Janeiro, até retornar à pista do 1º de Maio para uma sempre encantadora meia volta em pista até à meta…

Apesar de não ser uma distância oficial nas grandes provas, os 15 km acabam por ser uma solução equilibrada, por ultrapassar a efemeridade dos 10 km, sem exigir a preparação de uma maratona. Em termos de apoio, o facto de ser feriado nacional preenche as ruas com uma ambiência cálida e alegre, pressentindo-se também o aproximar das celebrações do Dia do Trabalhador. Assim, na subida da Almirante Reis sente-se muitas vezes aquele apoio que nos ajuda a galgar mais alguns metros. O preço também é amigável. Por fim, é sempre bom pensar que se está a acordar num feriado propenso a celebrações… Em termos negativos, tem de se apontar a ausência de medalha. Mas para quem dispense ou desvalorize este tipo de despojos materiais, a Corrida Internacional 1º de Maio afirma-se como uma das grandes provas da área metropolitana de Lisboa. É a minha eleita “corrida da marmota”, que conto repetir mais uma vez no feriado de 1 de maio deste ano. As inscrições estão abertas até ao final do dia de hoje.

Sobre a meta, uma nota final para o filme de Harold Ramis. É um ensaio humorístico sobre a repetição de oportunidades na relação com os outros. Se no início, a personagem de Bill Murray procura tirar vantagem da situação que está a viver para conseguir manipular para proveito próprio as relações com os outros, acaba por perceber que a única coisa que melhorará a sua vida e essas relações, é agir sobre si próprio, aproveitando todas essas oportunidades para ser uma pessoa melhor. Mas o melhor é mesmo vê-lo.

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publicado às 14:58


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