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A corrida da marmota

por JL, em 24.04.19

No Dia da Marmota, celebrado a 2 de fevereiro, acredita-se que a saída da marmota da toca, no final do período hibernação, indicará o clima dos dias seguintes. Se ao sair o animal vir a sua sombra é sinal de continuação do tempo invernoso. Caso contrário, é porque irá começar o bom tempo. Esta tradição é o ponto de partida para o filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, que em português se chama “O Feitiço do Tempo”, no qual Bill Murray desempenha o papel de Phil, um jornalista egocêntrico e antipático, destacado para fazer uma reportagem em direto sobre os acontecimentos do Dia da Marmota, que, sem qualquer explicação plausível para a ocorrência, dá por si permanentemente preso no tempo. Dias após dia, Phil acorda sempre no mesmo dia 2 de fevereiro, ficando remetido à repetição contínua das mesmas rotinas profissionais e pessoais daquele dia muito peculiar.

O exercício é pouco mais do que vulgar, mas não podia deixar de o fazer. Se ficasse retido no dia de uma corrida, e tivesse oportunidade de escolher, qual seria a corrida que estaria disposto a repetir permanentemente, dias após dia? Para esta resposta, existirão um conjunto de variáveis diversas: a distância, o percurso, a paisagem, o clima habitual, o ambiente humano, a competitividade, assim como a partilha com outros atletas, mas também os abastecimentos, blocos de partida, prémios de finisher, troféus, diplomas, etc.

Assim, de memória, entre as poucas provas que conheço, consigo lembrar-me de uma boa dúzia de que gosto e que gostava de repetir. A Meia Maratona de Cascais, os 20 km da Marginal e a Maratona de Lisboa partilham uma paisagem de cortar a respiração, serpenteando junto ao mar e ao Tejo, mas também a Ultra-Maratona Atlântica e a Meia na Areia Analice Silva nos esmagam com a presença do oceano. Já a São Silvestre de Lisboa privilegia-nos com a exuberante iluminação natalícia. A Maratona e Meia Maratona de Lisboa têm generalíssimas medalhas, que nos fazem encher o peito de orgulho. Quanto a camisola, nenhuma prova batia a Adidas da Corrida do Benfica António Leitão, embora eu me renda às Kappa da Global Energy Race -Corrida pela Paz. Para velocistas, a Corrida de Santo António ou a Meia-Maratona dos Descobrimentos podem encher as medidas. Para os mais estoicos, melhor será a Meia-Maratona de Setúbal, Meia de S. João das Lampas ou Ultra-Maratona Atlântica.

No entanto, apesar de tantas e tão boas opções, a minha “corrida da marmota” é a Corrida Internacional 1º de Maio. São 15 km razoavelmente exigentes, desde o Parque de Jogos 1º de Maio até à Praça do Comércio e regresso de novo à pista do estádio. O percurso é belo e elegante, atravessando o coração de Lisboa, sem conceder facilidades. Tem a graciosidade de partir em pista, no Parque de Jogos 1º de Maio, o que lhe dá um élan especial. Depois, atravessa avenidas como a República e Fontes Pereira de Melo, desce a Avenida da Liberdade até à Praça do Comércio e regressa pela Avenida Almirante Reis. É uma subida exigente, mas equilibrada, que permite marcar uma cadência permanente. De seguida, breves passagens pelas avenidas de Roma, Igreja e Rio de Janeiro, até retornar à pista do 1º de Maio para uma sempre encantadora meia volta em pista até à meta…

Apesar de não ser uma distância oficial nas grandes provas, os 15 km acabam por ser uma solução equilibrada, por ultrapassar a efemeridade dos 10 km, sem exigir a preparação de uma maratona. Em termos de apoio, o facto de ser feriado nacional preenche as ruas com uma ambiência cálida e alegre, pressentindo-se também o aproximar das celebrações do Dia do Trabalhador. Assim, na subida da Almirante Reis sente-se muitas vezes aquele apoio que nos ajuda a galgar mais alguns metros. O preço também é amigável. Por fim, é sempre bom pensar que se está a acordar num feriado propenso a celebrações… Em termos negativos, tem de se apontar a ausência de medalha. Mas para quem dispense ou desvalorize este tipo de despojos materiais, a Corrida Internacional 1º de Maio afirma-se como uma das grandes provas da área metropolitana de Lisboa. É a minha eleita “corrida da marmota”, que conto repetir mais uma vez no feriado de 1 de maio deste ano. As inscrições estão abertas até ao final do dia de hoje.

Sobre a meta, uma nota final para o filme de Harold Ramis. É um ensaio humorístico sobre a repetição de oportunidades na relação com os outros. Se no início, a personagem de Bill Murray procura tirar vantagem da situação que está a viver para conseguir manipular para proveito próprio as relações com os outros, acaba por perceber que a única coisa que melhorará a sua vida e essas relações, é agir sobre si próprio, aproveitando todas essas oportunidades para ser uma pessoa melhor. Mas o melhor é mesmo vê-lo.

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publicado às 14:58


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