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107 camaradas

por JL, em 01.10.19

Digam 107. Três dígitos. Foram 80 atletas e 27 caminhantes. Os números impressionantes que, somados, revelam o total de participantes na Corrida da Festa do Avante que envergaram a camisola verde de A Natureza Ensina. Foi mais uma jornada de clorofila que irrompeu nas ruas da Amora e do Seixal.

Para a história fica ainda um sexto lugar, por equipas, com 267 pontos, entre 55 equipas completas. Carlos Arieiro (28º), Bruno Loureiro (51º), Alexandre Tiago (57º), Carlos Cerqueira (63º) e José Neves (68º) completaram o quinteto que assegurou os excelentes resultados coletivos. Em femininos, Dina Oliveira alcançou ainda o triunfo em veteranas II.

Na geral, Nelson Cruz, do Clube Pedro Pessoa, somou seu quarto triunfo na prova, com 34:59, enquanto que Joana Fonseca venceu em femininos (40:50). Por equipas, triunfou o Vitória de Setúbal, com 28 pontos. A classificação individual e coletiva está disponível em joaolima.net, onde também é possível encontrar um historial dos vencedores desta competição e, desde 2005, as classificações completas.

No entanto, o mais importante na Corrida da Festa, realizada este ano no dia 8 de setembro, é representar um retorno à competição depois da paragem de Verão. É sobretudo isso. Uma oportunidade para reencontrar muitas caras conhecidas e voltar a sentir um pouco de adrenalina competitiva, ao mesmo tempo que se desenferrujam os músculos. Assim foi para mim também.

Pessoalmente, foi um debilitado regresso às provas. Depois de um Verão inconstante em que ficaram por conhecer a luz do dia mais treinos planeados do que aqueles que efetivamente tiveram a oportunidade de visitar o mundo cruel, dei por mim enganado a pensar que afinal não estava assim tão mal, ao fim de meia-dúzia de treinos mais conseguidos. Mas a montanha-russa da vida encarregou-se de me desafiar com uma ligeira gripe a meio da semana que precedeu a prova. Quatro dias parado com dores de garganta, espirros e fungadelas, mais uma jornada de viscosidades dignas de um qualquer filme constante do programa do festival de cinema de terror MOTELX e chego a Domingo amarfanhado e fatigado por uma noite quase sem dormir.

Por isso, depois da inicial jornada de reencontros e confraternização, tratei de fazer a prova com cuidado e sem as pouco aconselhadas euforias iniciais. Parti lentamente, embrulhado no meio pelotão, completando o primeiro quilómetro em 4’50. Depois, aproveito o desanuviamento para acelerar até uma média final de 4’20.  Com exceção de uma ligeira aceleração numa zona de descida, no Seixal, todo o percurso foi realizado entre 4’14 e 4’20. Acabou por ser uma agradável jornada de corrida, apesar da semana antecedente não ter ajudado.

Certezas não temos, mas a Corrida da Festa surge como uma excelente possibilidade de regresso à competição depois das férias de Verão, no próximo ano. Veremos se se confirma.

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publicado às 12:18

A natureza em Alhos Vedros

por JL, em 05.08.19

É uma corrida à antiga, este Grande Prémio de Atletismo de Alhos Vedros que, na manhã do dia 27 de julho, somou a XVI edição, com algumas dezenas de coletividades, atletas de todos escalões desde os benjamins aos veteranos e mãos-cheias de gente nas ruas.

Para a prova principal, que reunia todos os escalões de seniores e veteranos femininos e masculinos, A Natureza Ensina levou uma pequena comitiva de 11 atletas dispostos a galgar quilómetros de estrada para ir percorrer os 5,4 km da prova moitense.

Assim, antes das 9h00 já por ali andava animada a trupe de camisolas verdes no protocolar aquecimento e na hora prevista lá nos alinhavamos todos junto ao pórtico, por debaixo de nuvens cinzentas que ameaçavam uma improvável chuva de julho, à espera do aviso de partida.

Apesar de pequena, a comitiva da ANE tinha justificadas aspirações a conseguir alguns pódios e uma classificação coletiva honrosa. Cumpridas as duas voltas ao circuito nas ruas alhos vedrenses, arrumámo-nos na chegada com um segundo lugar, três terceiros e quatro quintos, que ajudaram a alcançar um excelente terceiro lugar por equipas, numa prova dominada pelo CDR Ribeirinho, secundado pelo GDP Chão Duro. Para assegurar esta classificação com uma equipa tão pequena muito contribuiu que mais de 70 por cento dos atletas tenha conseguido concluir a prova nos 5 primeiros dos seus escalões. Uma ótima performance.

Eu, como sempre, fiquei por um nível intermédio em todos os aspetos. Parti atrás da linha de favoritos e, como sempre, geri o esforço enquanto os via à distância num frenesim esgotante. Assinalei o objetivo de rodar abaixo dos 4/km e circulei permanentemente na casa dos 3’45 a 3’55/km, com direito a uma ligeira aceleração no quilómetro final. Com uma gestão de esforço eficiente, ainda ganhei uns 4 ou 5 lugares na segunda volta, mas que de nada valeram em termos de classificação no escalão. Concluí em 5º lugar, com 20’41, ainda com direito a medalha, t-shirt do Troféu e às fotografias da praxe. Nada mau para um fecho de temporada com poucas ambições e completa anarquia de treino.

Uma palavra final para a excelente organização do AtletisMoita – Torneio em Atletismo das Coletividades do Concelho da Moita. São 12 provas, algumas delas bastante conceituadas a nível regional, num calendário relativamente equilibrado e bem distribuído ao longo do ano, sem paragens excessivas, e com uma excelente comunicação. No website do AtletisMoita é possível aceder a toda a informação sobre as competições, com datas, regulamentos e classificações completamente acessíveis a consulta pública, num exemplo de transparência. Qualidades que se devem manter por aqui e que podem e devem ser imitadas por outros troféus.

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publicado às 11:05

Uma semana depois, aí estamos de regresso à mesma marginal do Seixal para disputar a 13ª Corrida da Baía da SFOA (Sociedade Filarmónica Operária Amorense), 11ª prova do Troféu de Atletismo do Seixal, depois de termos corrido a última Milha Urbana, sete dias antes.

Foi um regresso surpreendentemente marcado pela novidade. Uma conjugação difícil de satisfazer, que se explica pela minha estreia nesta Corrida da Baía e pela descoberta deste histórico clube, fundado em 1898 por um grupo de operários garrafeiros.

A pensar nessa dupla descoberta do clube e da prova, deixo três pequenas notas sobre as coletividades e a competição:

1. Franquear as portas do Cine Teatro Amorense, sede da SFOA, e descobrir a sala de espetáculos, com o palco elevado e o ecrã de cinema é ser tocado por uma nostalgia de um tempo e realidade que já praticamente não vivi e do qual tive apenas um breve vislumbre. Refiro-me às inúmeras coletividades urbanas espalhadas pelos bairros das grandes e médias cidades, que aglutinavam as pessoas para uma vivência de partilha coletiva e para um sentimento de pertença local. Por isso, talvez vítima de demasiada imaginação, assim que entrei naquele espaço, pareceu-me sentir aquelas paredes impregnadas de histórias: Histórias de pessoas e emoções que ali dançaram, de olhos postos num futuro, dos jantares e festas, dos filmes que ali foram vistos, entre risadas ou de lábios mordidos a conter as emoções, e das grandes assembleias e debates que galvanizaram argumentos e discórdias. Não é difícil adivinhar os dias divididos entre as bancadas da Medideira, para ver o Amora FC, e os salões frescos do SFOA, para jogar à Sueca, comer gelados de caramelo, discutir o campeonato de futebol e ver o filme da noite.

Assisti ainda a um resquício dessa realidade nas ruas de Almada, povoadas de pequenas e grandes coletividades, algumas com mais de uma centena de anos, que definhavam lentamente, desfazendo-se de património entre um perfume nostálgico de outra era e a desconsideração jocosa das gerações mais jovens. Entrei com a minha mãe na sala de cinema da SFUAP para ver o ET, onde hoje não restam mais do que tapumes envergonhados a esconder ruínas, e assisti com tristeza ao fim de uma era de colossos associativos como dinossauros à beira da extinção. Agrada-me observar os casos que ludibriaram, pelo menos parcialmente, esse destino.

2. Sobre a corrida: A partida acontece em frente da porta da sede da SFOA, numa descida até à baía, onde se vira à esquerda, em direção ao recinto do Avante, para uma breve incursão de uma curta volta, com imediato retorno e passagem junto à Medideira até quase à zona de partida. Depois, é seguir a marginal lado a lado com a baía, primeiro do lado esquerdo, contornando toda a baía até ao outro lado, até ao ponto de retorno situado junto da Arrentela, mais ou menos onde estava a meta da Milha Urbana do Seixal, e regressar, agora com a baía do lado direito, contornando outra vez até à Amora, até reencontrar a esquina da rua da sede da SFOA e galgar alguns metros de subida até à meta, num total de 8,8 km.

Como sempre tenho vindo a fazer nesta temporada, arrumei-me numa segunda linha, atrás dos atletas mais rápidos. Aquele ponto que permite medir distâncias à distância, longe da frente, mas suficiente para ter pontos de referência. Parti rápido. Mais do que pretendia. Abaixo de 3’30, na parte do percurso mais difícil. Mas cedo estabilizei num patamar mais confortável (3’45). Depois da confusão e indefinição inicial, com os atletas mais arrumados, consegui ainda ganhar quatro ou cinco lugares antes do quilómetro 3. A partir daqui o objetivo era estabilizar num ritmo confortável e tentar guardar forças para um final mais intenso. Infelizmente, mais uma vez dei por mim a correr sozinho. Mais rápido do que os que me seguiam, mas distante do grupo da frente.

Com o passar dos quilómetros permanecia à distância de um grupo de três atletas que me pareceram demasiado rápidos no início. Mas, a pouco e pouco, as distâncias começaram a reduzir-se. Rodava mais ou menos a 3’55, com oscilações. O grupo dos três começou a partir-se, ficando dois atletas mais atrasados, enquanto o terceiro se aproximou da frente. Senti que aqueles dois eram a minha deixa para o tal esforço extra. Progredi com mais intensidade, ultrapassei o mais atrasado, mas o segundo não quebrou e seguimos a par até ao final. Procurei desferir alguns ataques, mas as pernas não me deixavam dar mais do que uns breves safanões sem continuidade. Ao meu lado, ele parecia responder com facilidade. Insisti no último quilómetro, sem sucesso, e senti as pernas a fraquejar com um ligeiro vento contra. Ele fez um derradeiro ataque pouco antes da curva e percebi que não conseguiria acompanhá-lo. Os dois segundos de diferença final atestam as diferenças. Terminei os 8,8 km em 34'20.

3. Nessa manhã de sol percebi os comentários de outros atletas que afirmavam ser esta a prova que preferiam na Troféu de Atletismo do Seixal. A Corrida da Baía é uma prova muito interessante. Bem localizada, num cenário muito agradável, repleto dos encantos da baía e de marcos de história local, é também uma prova muito rápida e competitiva. Permite rolar com uma intensidade elevada durante a maior parte do percurso e atrai alguns atletas de um nível bastante competitivo, atendendo ao amadorismo. A Natureza Ensina triunfou coletivamente nesta competição e garantiu o melhor somatório de pontos para o Troféu de Atletismo, além de mais de uma dezena de pódios individuais. Uma jornada de sucesso em fim-de-semana comemorativo do 7º aniversário do atletismo desta associação de génese ambiental, que se encontra dedicada ao atletismo e que já entrou nos meandros da formação e do desporto federado. Nunca sabemos o que o futuro nos reserva, mas estes passos parecem estar a ser dados com firmeza e em chão suficientemente sólido para assegurar um futuro longo.

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publicado às 10:41

Como se fosse a primeira vez

por JL, em 02.05.19

Era dia 13 de abril e estávamos em pleno Estádio da Luz, no intervalo do Benfica – Bayern Munique, com o marcador a assinalar 1-1, na partida da segunda mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, quando partilhei com alguns amigos a minha inusitada e recente experiência na Corrida do Benfica António Leitão, três dias antes. Natural reação de genuíno espanto, mas depois, refeitos e mais acomodados à ideia, o José, o Mário e Ilídio desafiaram-me à real prova de valentia: “Se pensas que consegues correr, então agora tens de tentar os 15 km na Corrida Internacional 1º de Maio!” Tão conhecedor do universo das competições de atletismo popular como de astrofísica ou de agricultura sintrópica, questionei-os desconfiadamente sobre essa tal prova que se adivinhava na próxima esquina da mudança de mês. Mas soube apenas que era organizada pela CGTP no dia 1 de maio, pois a segunda parte estava a começar.

Em casa, curioso acerca da conversa do intervalo, googlei com sucesso. Ali estava ela! Ainda a tempo de inscrições. Não me alongo sobre recuos e indecisões, devido ao receio de fazer 15 km, avançando diretamente para a linha de partida desse 1º de maio de 2016. Nesse momento, ainda não sabia que estava na pista de uma prova que se tornaria uma das minhas favoritas. Nesse ano, nessa minha segunda experiência competitiva, conclui espantado os 15 km em 1:09:44. Uma surpresa que não me fez esquecer a dificuldade da subida da Almirante Reis, em particular aquele troço final junto da João XXI… Depois disso, já não houve pernas que me valessem para qualquer tipo de aceleração e limitei-me a arrastar-me até ao final.

Em 2017, regressei mais ousado e reforçado com umas sapatilhas Supernova Glide Boost 7, descobertas em promoção, que me aconchegaram os pés na 1:04:33 de duração do percurso. Cinco minutos mais rápido! Tudo correu bem e até a Almirante Reis me pareceu mais plana. No ano seguinte, em 2018, já acreditava estar noutro patamar, e apetrechado com uns Adios 3, acelerei para 1:01:50, pulverizando o meu melhor tempo dos 15 km, alcançado na Corrida dos Sinos desse ano, e retirando 2:40 ao melhor que tinha feito no anterior passeio pela Almirante Reis.

Assim, não havia volta a dar e chegava a 2019 bastante motivado para a quarta participação consecutiva. Razões para isso? Muito poucas. Como me falta o tempo e as responsabilidades e deveres parecem multiplicar-se, deixei de frequentar o ginásio. Tento compensar com mais treino em estrada, mas já desisti de seguir qualquer tipo de plano, limitando-me a treinar como e quando posso, nem que sejam uns minutos perto de casa, mais ou menos de acordo com algumas coisas que li aqui e ali. Apenas tento aumentar bastante as distâncias de treino em preparação para as provas mais longas e desta feita até fiz uns exercícios em rampas bastante mal-amanhados… No entanto, o corpo parece que se vai modelando de acordo com a prática regular. O que se reflete nas provas.

Assim, conclui a minha quarta participação na Corrida Internacional 1º de Maio com 1:00:54, numa prova que correu razoavelmente bem, apesar do calor e do vento, e, claro, daquela Almirante Reis que continua seriamente a antipatizar comigo. Aliás, esta prova foi como que um regresso às dificuldades da primeira participação, pois há algum tempo que não terminava tão exausto. Além do vento forte, sol e calor, aquela sensação dos músculos estarem prestes a ceder, e até o relógio resistiu a colaborar. Não consegui o GPS, que me permite gerir mais equilibradamente as provas, tendo feito todo percurso de acordo com o feeling do momento, como fazia nas primeiras edições. Por acaso, correu bem, mas receio sempre entusiasmar-me demasiado sem o aviso do relógio e gerir mal o esforço.

Algumas palavras finais para o nível de competitividade desta prova, que é uma clássica com história. Apesar de um menor número de participantes que em anos anteriores, voltaram a registar-se resultados interessantes, com o vencedor, Pedro Arsénio (CF Belenenses), a terminar com 48:21. Em femininos, Daniela Sousa (GD Estreito), conseguiu 56:56. As classificações estão disponíveis no website da Xistarca.

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publicado às 10:24

A corrida da marmota

por JL, em 24.04.19

No Dia da Marmota, celebrado a 2 de fevereiro, acredita-se que a saída da marmota da toca, no final do período hibernação, indicará o clima dos dias seguintes. Se ao sair o animal vir a sua sombra é sinal de continuação do tempo invernoso. Caso contrário, é porque irá começar o bom tempo. Esta tradição é o ponto de partida para o filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, que em português se chama “O Feitiço do Tempo”, no qual Bill Murray desempenha o papel de Phil, um jornalista egocêntrico e antipático, destacado para fazer uma reportagem em direto sobre os acontecimentos do Dia da Marmota, que, sem qualquer explicação plausível para a ocorrência, dá por si permanentemente preso no tempo. Dias após dia, Phil acorda sempre no mesmo dia 2 de fevereiro, ficando remetido à repetição contínua das mesmas rotinas profissionais e pessoais daquele dia muito peculiar.

O exercício é pouco mais do que vulgar, mas não podia deixar de o fazer. Se ficasse retido no dia de uma corrida, e tivesse oportunidade de escolher, qual seria a corrida que estaria disposto a repetir permanentemente, dias após dia? Para esta resposta, existirão um conjunto de variáveis diversas: a distância, o percurso, a paisagem, o clima habitual, o ambiente humano, a competitividade, assim como a partilha com outros atletas, mas também os abastecimentos, blocos de partida, prémios de finisher, troféus, diplomas, etc.

Assim, de memória, entre as poucas provas que conheço, consigo lembrar-me de uma boa dúzia de que gosto e que gostava de repetir. A Meia Maratona de Cascais, os 20 km da Marginal e a Maratona de Lisboa partilham uma paisagem de cortar a respiração, serpenteando junto ao mar e ao Tejo, mas também a Ultra-Maratona Atlântica e a Meia na Areia Analice Silva nos esmagam com a presença do oceano. Já a São Silvestre de Lisboa privilegia-nos com a exuberante iluminação natalícia. A Maratona e Meia Maratona de Lisboa têm generalíssimas medalhas, que nos fazem encher o peito de orgulho. Quanto a camisola, nenhuma prova batia a Adidas da Corrida do Benfica António Leitão, embora eu me renda às Kappa da Global Energy Race -Corrida pela Paz. Para velocistas, a Corrida de Santo António ou a Meia-Maratona dos Descobrimentos podem encher as medidas. Para os mais estoicos, melhor será a Meia-Maratona de Setúbal, Meia de S. João das Lampas ou Ultra-Maratona Atlântica.

No entanto, apesar de tantas e tão boas opções, a minha “corrida da marmota” é a Corrida Internacional 1º de Maio. São 15 km razoavelmente exigentes, desde o Parque de Jogos 1º de Maio até à Praça do Comércio e regresso de novo à pista do estádio. O percurso é belo e elegante, atravessando o coração de Lisboa, sem conceder facilidades. Tem a graciosidade de partir em pista, no Parque de Jogos 1º de Maio, o que lhe dá um élan especial. Depois, atravessa avenidas como a República e Fontes Pereira de Melo, desce a Avenida da Liberdade até à Praça do Comércio e regressa pela Avenida Almirante Reis. É uma subida exigente, mas equilibrada, que permite marcar uma cadência permanente. De seguida, breves passagens pelas avenidas de Roma, Igreja e Rio de Janeiro, até retornar à pista do 1º de Maio para uma sempre encantadora meia volta em pista até à meta…

Apesar de não ser uma distância oficial nas grandes provas, os 15 km acabam por ser uma solução equilibrada, por ultrapassar a efemeridade dos 10 km, sem exigir a preparação de uma maratona. Em termos de apoio, o facto de ser feriado nacional preenche as ruas com uma ambiência cálida e alegre, pressentindo-se também o aproximar das celebrações do Dia do Trabalhador. Assim, na subida da Almirante Reis sente-se muitas vezes aquele apoio que nos ajuda a galgar mais alguns metros. O preço também é amigável. Por fim, é sempre bom pensar que se está a acordar num feriado propenso a celebrações… Em termos negativos, tem de se apontar a ausência de medalha. Mas para quem dispense ou desvalorize este tipo de despojos materiais, a Corrida Internacional 1º de Maio afirma-se como uma das grandes provas da área metropolitana de Lisboa. É a minha eleita “corrida da marmota”, que conto repetir mais uma vez no feriado de 1 de maio deste ano. As inscrições estão abertas até ao final do dia de hoje.

Sobre a meta, uma nota final para o filme de Harold Ramis. É um ensaio humorístico sobre a repetição de oportunidades na relação com os outros. Se no início, a personagem de Bill Murray procura tirar vantagem da situação que está a viver para conseguir manipular para proveito próprio as relações com os outros, acaba por perceber que a única coisa que melhorará a sua vida e essas relações, é agir sobre si próprio, aproveitando todas essas oportunidades para ser uma pessoa melhor. Mas o melhor é mesmo vê-lo.

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publicado às 14:58

Os segredos mais bem guardados desvendam-se nos dias especiais. Por exemplo, quando olho para trás, penso que entre as maiores influências para as minhas jornadas de running estarão dois livros. É sobre o primeiro deles que tenciono escrever hoje, neste 23 de abril, Dia Mundial do Livro.

Não me recordo da razão que me levou a comprá-lo. Provavelmente estava já a germinar alguma ideia para qual buscava substrato. Mas, a aquisição do livro “Nascidos para Correr”, do jornalista Chistopher McDougall, é indubitavelmente uma das primeiras principais razões para ter começado a correr. Sei que não é um Shakespeare, um Proust ou um Dostoievsky. Não tem a elegância e a profundidade dos mestres do cânone, nem sequer de alguns contemporâneos, mas numa escrita com um estilo de inspiração jornalística, sobretudo a partir de géneros como a entrevista e a reportagem, este livro revela uma enorme destreza narrativa.

A partir de uma primeira story sobre uma incapacidade pessoal, partilhada por muitos, que é a fraca propensão do autor para o atletismo, o livro inicia uma investigação sobre históricos grandes corredores e provas, que nos leva a conhecer ultra-runners, ultra-trails e uma tribo lendária de corredores: os Tarahumara.

Assentando numa narrativa bipartida, divide-se entre uma história presente, que é a preparação de uma ultracorrida organizada para um reduzido grupo de superatletas, numa estrutura com um registo próximo da literatura de aventuras, em que não falta o discurso motivacional nem o humor, e as permanentes incursões em territórios da ciência e investigação sobre o corpo humano e a marcha evolutiva dos hominídeos. Além dos referidos Tarahumara, somos convidados a conhecer os caçadores-recolectores bosquímanos, as técnicas de rastreamento e os princípios da “caça de persistência”, no que poderá ter sido uma das razões de sobrevivência do nosso antepassado Homo erectus, numa verdadeira revisitação de muitas teorias sobre o bipedismo.

Não faltam ainda abordagens breves a dietas, técnica de corrida e calçado desportivo. Como se não bastasse, qual o outro livro que estabelece pontes entre a corrida e a poesia beat de Allen Ginsberg ou Jack Kerouac? E apresenta-nos ainda o “The Dharma Bums” (“Os Vagabundos do Dharma”), de Jack Kerouac, como possibilidade de texto de iniciação ao treino...

Por tudo isto, lê-se num ápice, sem esforço, e com muito prazer. Boas leituras!

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publicado às 10:22

Nos últimos dois anos, tenho preparado o ano de running em torno de um conjunto de três ou quatro provas que seleciono com antecipação, ajustando depois as restantes em função destes objetivos. Nem sempre decorreu como planeado, aliás na maioria da vezes, mas vale a benévola intenção. Em 2018, preparei a época em torno da Meia Maratona do Ultra-Trail de São Mamede (22km), Ultra-Maratona Atlântica Melides – Tróia (43km) e Maratona de Lisboa. Este ano decidi-me pelos 20 km da Marginal, Meia-maratona da Lisbon Eco-Marathon (21km) e Maratona do Porto. Objetivos mais modestos, pois o tempo não é elástico, mas igualmente duas estreias e um regresso.

Não quer dizer que sejam as provas mais longas, nem sequer são aquelas em que tenho maiores ambições competitivas. São apenas vértices de organização em torno dos quais procuro fazer a gestão dos ritmos de treino da temporada. Por exemplo, em 2018 investi em alguns trails e provas de praia, como o Corre Praia, Meia Maratona Analice Silva, Wine Trail Ervideira, Trilhos da Malaposta, ao mesmo tempo que prolongava os treinos, de modo a preparar as duas primeiras. Depois, no Verão voltei a investir mais no treino de estrada, antes da Maratona de Lisboa.

Toda esta conversa apenas para dizer que a primeira etapa desta época, os 20 km da Marginal tiveram lugar no passado domingo, deixando-me com um sentimento agridoce. Esta foi apenas uma segunda participação. Em 2017, depois de alguma loucura competitiva em março e no início de abril, tive de parar algum tempo para recuperar e cheguei aos 20km da Marginal mais embalado pelo descanso do que pelos treinos. Completei o percurso com 1:30:50. Mais tarde, ainda nesse ano, regressei à mesma distância em Almeirim, com um terrível resultado (1:36:17), que ainda quero explorar aqui numa série de short-stories, inspiradas em Edgar Allan Poe, sobre as piores e mais tenebrosas experiências competitivas que enfrentei: cansaço, lesões, equipamento desadequado, etc. Narrativas de suspense e terror, com a promessa de serem verdadeiramente arrepiantes.

Mas, este ano, como ando a circular mais rápido, tracei como meta um tempo pelo menos abaixo de 1:25:00. Claro que se não tivesse estado noutra prova no dia anterior, a ambição poderia ser outra, mas insensato é uma espécie de middle-name que me acompanha ao longo da vida… Mesmo assim, quando na partida, encontrei o Paulo, que corre na Natureza e Ensina e também no Clube Amigos do Parque da Paz, e que está a preparar a Maratona de Aveiro (que por isso sensatamente não esteve na Milha Urbana de Corroios), eu ainda estava convencido de que teria capacidade para ignorar as dores musculares que senti durante o aquecimento e que poderia conseguir um registo a 4:10/km. Aliás, na breve troca de palavras que tivemos, fiquei convencido de que ele pretendia treinar um pouco abaixo deste ritmo e assumi uma partida mais à frente.

Mas o desenrolar da história inverteu os papéis dos protagonistas. Ao quilómetro dois estávamos lado a lado e o relógio marcava os 4:10/km que previra. Seguimos assim até próximo do quilómetro 10, quando comecei a sentir novamente dores musculares. Ele, em excelente forma, aumentou ligeiramente o ritmo, e eu, superlativamente “empenado”, comecei a quebrar um pouco. Assim, rapidamente se desenhou um fosso de algumas centenas de metros. Ao quilómetro 12 estava a sentir-me melhor, procurei recuperar, mas ao aproximar do Alto da Boa Viagem já o tinha perdido de vista novamente. Completei a subida em esforço e verifiquei que o relógio assinalava 4:11/km de média. A partir daqui, com um percurso muito mais acessível, seria possível recuperar algum tempo se o corpo deixasse. Entre os 16 e os 17 quilómetros ainda estive junto de alguns atletas, num ritmo entre 3:52 e 3:58/km, mas a partir daqui senti uma quebra assinalável, sem força, desacelerei bastante e acabei fazer o último quilómetro a um ritmo bastante lento, na casa dos 4:15/km. Não se pode classificar de mau um tempo de 1:24:30 para alguém que retirou seis minutos ao melhor que tinha feito nesta prova. Mas, atendendo a alguns tempos mais recentes, acredito que era possível fazer melhor… Ou talvez não. As classificações estão disponíveis no website da organização.

Não digo “nunca mais”, nem que retire daqui alguma lição, pois já antecipava para as minhas pernas o natural efeito do excesso da véspera, mas retirei dividendos de uma outra experiência complementar a esta. Ao terminar a prova, completamente escangalhado, com a perna esquerda a doer e a parecer mais curta do que a outra, convenci-me facilmente de que valeria a pena juntar-me à fila para as massagens do GFD Running. Foi uma espera longa e, por vezes, desesperante, mas recompensada por uma igualmente longa e impecável massagem, que me deixou descontraidamente leve, a caminhar tão suave e relaxadamente como se toda a cidade de Lisboa tivesse sido generosamente alcatifada como muitas das nossas casas em meados dos anos 80. Um obrigado especial aos excelentes profissionais do GFD Running que ali estiveram pacientemente a remediar os desarranjos musculares de uma horda de corredores aflitos. Cinco estrelas!

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publicado às 14:31

Primeiro classificado

por JL, em 21.01.19

Finalmente primeiro. O motivo é de euforia. Regozijo. Farta celebração familiar. Até razão bastante para iniciar aquele projeto de um blogue sobre running, que há muito estava na gaveta.

Ao procurar pelo meu nome nas classificações da 4ª Corrida Solidária dos Adeptos e Simpatizantes, no site da Xistarca, este domingo à tarde, verifiquei ser o primeiro classificado dos ‘joões limões’ na corrida dessa manhã. Um primeiro vislumbre desta importante disputa adivinhou-se na sexta-feira pela hora de almoço, quando ao consultar as listas com os números de dorsais fui avisado de que o meu nome estava repetido. Segui com o olhar o indicador que me avisava e lá estavam duas linhas com o mesmo nome. O meu nome. Lapso da organização? Aborrecimento capaz de comprometer os poucos minutos disponíveis para o levantamento do dorsal? Não. Apenas um simples caso de homonímia. Na linha de baixo, o nome completava-se com a inscrição num invejável escalão muito mais jovem…

Confesso que esta particular disputa nunca pairou nos meus pensamentos na manhã de dia 20. Como sempre, tinha preparado o equipamento na véspera. Apenas repartido entre duas possibilidades de camisola, calções e ténis, mediante a temperatura e o feeling da hora. Tinha decidido utilizar uma camisola alusiva ao clube de que sou adepto, estando apenas indeciso entre a camisola da prova ou da Corrida António Leitão de 2017. Optei pela segunda, por me agradar o tecido da Adidas nos dias mais frios. Já na Cidade Universitária, decidi calçar os Lunartempo, em detrimento dos meus preferidos, para lhes dar alguma rodagem competitiva, uma vez que têm sido pouco utilizados.

Queria fazer um tempo abaixo dos 40’, por isso decidi partir não muito longe da linha da frente. Debati-me com alguma confusão no arranque, mas rapidamente consegui posicionar-me numa posição privilegiada em relação ao grupo na liderança. Queria aproveitar o embalo inicial, mas sabia que tinha de me preservar para o sobe-desce da República. Assim, a partir dos 3km assentei num ritmo mais moderado, perdendo algumas posições, mas mantendo-me sempre nos 30 primeiros. Confesso que a falta de treino de ginásio e de rampas fez-me sentir algumas dificuldades nas subidas, com quebra de ritmo, mas fui conseguindo gerir o tempo, de modo a alcançar 39’52. Dentro dos objetivos estabelecidos. Mas longe dos resultados de Danilo Pimentel (34’11) e Alexandra Sousa (38’31), vencedores em masculinos e femininos. A classificação completa está disponível no website da organizador.

Foi uma bela manhã competitiva. Com um dia solarengo, apesar de alguma brisa mais fria. O percurso da prova é muito agradável, com piso em boas condições, e desafiante q.b. com os seis túneis da República e a subida para a reitoria. O número de 765 finishers garante uma moldura humana calorosa e empolgante, mas não demasiadamente extensa para comprometer o funcionamento da prova. Adiciona-se o comprometimento ambiental do organizador, decidido a aderir a promover práticas mais sustentáveis no uso de plásticos, papel e energia, que podem ajudar a contribuir para uma progressiva mudança de atitude dos cidadãos, e ainda uma recolha solidária de equipamentos desportivos para a Associação O Companheiro.

Recordo-me de um texto de Borges, com o título “O outro” quando olho para as primeiras linhas deste texto e penso nas motivações para a sua escrita. A vontade de partilhar a experiência. E resta-me agradecer ao meu homónimo por ter-me motivado a escrever esta crónica e desejar-lhe as maiores felicidades e sucesso. Quem me dera ser eu o sénior e estar a começar…

 

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publicado às 21:51


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