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Uma semana depois, aí estamos de regresso à mesma marginal do Seixal para disputar a 13ª Corrida da Baía da SFOA (Sociedade Filarmónica Operária Amorense), 11ª prova do Troféu de Atletismo do Seixal, depois de termos corrido a última Milha Urbana, sete dias antes.

Foi um regresso surpreendentemente marcado pela novidade. Uma conjugação difícil de satisfazer, que se explica pela minha estreia nesta Corrida da Baía e pela descoberta deste histórico clube, fundado em 1898 por um grupo de operários garrafeiros.

A pensar nessa dupla descoberta do clube e da prova, deixo três pequenas notas sobre as coletividades e a competição:

1. Franquear as portas do Cine Teatro Amorense, sede da SFOA, e descobrir a sala de espetáculos, com o palco elevado e o ecrã de cinema é ser tocado por uma nostalgia de um tempo e realidade que já praticamente não vivi e do qual tive apenas um breve vislumbre. Refiro-me às inúmeras coletividades urbanas espalhadas pelos bairros das grandes e médias cidades, que aglutinavam as pessoas para uma vivência de partilha coletiva e para um sentimento de pertença local. Por isso, talvez vítima de demasiada imaginação, assim que entrei naquele espaço, pareceu-me sentir aquelas paredes impregnadas de histórias: Histórias de pessoas e emoções que ali dançaram, de olhos postos num futuro, dos jantares e festas, dos filmes que ali foram vistos, entre risadas ou de lábios mordidos a conter as emoções, e das grandes assembleias e debates que galvanizaram argumentos e discórdias. Não é difícil adivinhar os dias divididos entre as bancadas da Medideira, para ver o Amora FC, e os salões frescos do SFOA, para jogar à Sueca, comer gelados de caramelo, discutir o campeonato de futebol e ver o filme da noite.

Assisti ainda a um resquício dessa realidade nas ruas de Almada, povoadas de pequenas e grandes coletividades, algumas com mais de uma centena de anos, que definhavam lentamente, desfazendo-se de património entre um perfume nostálgico de outra era e a desconsideração jocosa das gerações mais jovens. Entrei com a minha mãe na sala de cinema da SFUAP para ver o ET, onde hoje não restam mais do que tapumes envergonhados a esconder ruínas, e assisti com tristeza ao fim de uma era de colossos associativos como dinossauros à beira da extinção. Agrada-me observar os casos que ludibriaram, pelo menos parcialmente, esse destino.

2. Sobre a corrida: A partida acontece em frente da porta da sede da SFOA, numa descida até à baía, onde se vira à esquerda, em direção ao recinto do Avante, para uma breve incursão de uma curta volta, com imediato retorno e passagem junto à Medideira até quase à zona de partida. Depois, é seguir a marginal lado a lado com a baía, primeiro do lado esquerdo, contornando toda a baía até ao outro lado, até ao ponto de retorno situado junto da Arrentela, mais ou menos onde estava a meta da Milha Urbana do Seixal, e regressar, agora com a baía do lado direito, contornando outra vez até à Amora, até reencontrar a esquina da rua da sede da SFOA e galgar alguns metros de subida até à meta, num total de 8,8 km.

Como sempre tenho vindo a fazer nesta temporada, arrumei-me numa segunda linha, atrás dos atletas mais rápidos. Aquele ponto que permite medir distâncias à distância, longe da frente, mas suficiente para ter pontos de referência. Parti rápido. Mais do que pretendia. Abaixo de 3’30, na parte do percurso mais difícil. Mas cedo estabilizei num patamar mais confortável (3’45). Depois da confusão e indefinição inicial, com os atletas mais arrumados, consegui ainda ganhar quatro ou cinco lugares antes do quilómetro 3. A partir daqui o objetivo era estabilizar num ritmo confortável e tentar guardar forças para um final mais intenso. Infelizmente, mais uma vez dei por mim a correr sozinho. Mais rápido do que os que me seguiam, mas distante do grupo da frente.

Com o passar dos quilómetros permanecia à distância de um grupo de três atletas que me pareceram demasiado rápidos no início. Mas, a pouco e pouco, as distâncias começaram a reduzir-se. Rodava mais ou menos a 3’55, com oscilações. O grupo dos três começou a partir-se, ficando dois atletas mais atrasados, enquanto o terceiro se aproximou da frente. Senti que aqueles dois eram a minha deixa para o tal esforço extra. Progredi com mais intensidade, ultrapassei o mais atrasado, mas o segundo não quebrou e seguimos a par até ao final. Procurei desferir alguns ataques, mas as pernas não me deixavam dar mais do que uns breves safanões sem continuidade. Ao meu lado, ele parecia responder com facilidade. Insisti no último quilómetro, sem sucesso, e senti as pernas a fraquejar com um ligeiro vento contra. Ele fez um derradeiro ataque pouco antes da curva e percebi que não conseguiria acompanhá-lo. Os dois segundos de diferença final atestam as diferenças. Terminei os 8,8 km em 34'20.

3. Nessa manhã de sol percebi os comentários de outros atletas que afirmavam ser esta a prova que preferiam na Troféu de Atletismo do Seixal. A Corrida da Baía é uma prova muito interessante. Bem localizada, num cenário muito agradável, repleto dos encantos da baía e de marcos de história local, é também uma prova muito rápida e competitiva. Permite rolar com uma intensidade elevada durante a maior parte do percurso e atrai alguns atletas de um nível bastante competitivo, atendendo ao amadorismo. A Natureza Ensina triunfou coletivamente nesta competição e garantiu o melhor somatório de pontos para o Troféu de Atletismo, além de mais de uma dezena de pódios individuais. Uma jornada de sucesso em fim-de-semana comemorativo do 7º aniversário do atletismo desta associação de génese ambiental, que se encontra dedicada ao atletismo e que já entrou nos meandros da formação e do desporto federado. Nunca sabemos o que o futuro nos reserva, mas estes passos parecem estar a ser dados com firmeza e em chão suficientemente sólido para assegurar um futuro longo.

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publicado às 10:41

"Accelerati incredibilus"

por JL, em 14.04.19

Para quem não conheça ou não reconheça, o pseudolatim do título vem emprestado da série de animação “Road Runner”, conhecida em Portugal por “Bip Bip” e no Brasil por “Papa-Léguas”, quando no genérico inicial as personagens são apresentadas num plano fixo, com uma legenda com o “nome científico” entre parêntesis. Esta cientificidade foi modificada ao longo das diferentes temporadas da série, mas quase sempre com nomes reconfortantemente cómicos e desconcertantes. Que melhor introdução para esse foguete das provas de atletismo local, que é a Milha, do que o generoso exemplo do galo-corredor americano que celebra 70 anos em 2019?

Três anos depois, regressei à Milha Urbana de Corroios com um nó no estômago e um olímpico ponto de interrogação a coroar a frase: O que é que eu estou a fazer aqui? Sou um Accelerati vulgaris, não gosto de provas rápidas, sinto-me um coiote, tenho outra prova amanhã ou ainda me vou lesionar, foram alguns dos pensamentos turvos que me ocorreram naqueles minutos iniciais de deriva pelas ruas de Corroios. Mas depois, uma cara conhecida aqui. Outra ali. Uns cumprimentos aqui e ali. Mais umas provas que estão a acontecer e das quais vemos um bocado. Depois, aquela multidão de gente de camisolas verdes e tudo acaba por se arrumar no seu sentido. Então, recordo-o com clareza: decidi vir a esta prova para voltar a correr pela Natureza Ensina e ajudar a equipa com alguns pontos modestos, e também para reencontrar caras que já não via há algum tempo. Enfim, límpido. Mesmo que signifique algum empeno nos 20 km Marginal...

Isto de correr em equipa tem muito de gregário, social e até qualquer coisa de tribal. Para quem não sabe sobre o que os corredores falam antes e depois das provas, que será a larga maioria da população mundial, aviso que também não o desvendarei. Deixo apenas a promessa de um dia destes editar um “Life of Runners”, ao estilo de David Attenborough, para desvendar as folhagens opacas que escondem os comportamentos desse estranho mamífero gregário que se aglomera socialmente em grupos de cores idênticas e que repete regularmente a bizarria de percorrer em grupo e em passo tão acelerado quanto possível um itinerário idêntico, às vezes circularmente, até um ponto em que todo o grupo interrompe o percurso e recomeça a socialização e hidratação. Um estranho comportamento, de aparência vagamente migratória, mas que pode encobrir outras razões que apenas o avanço científico poderá descortinar. Não perca: brevemente no seu computador…

Enfim, de regresso à Milha, depois deste devaneio de contornos histórico-televisivos, fiquei muito satisfeito com um 5º lugar no escalão, com o tempo de 5’35. De acordo com a estimativa oficial, corresponde a qualquer coisa como 3’28/km, mas o meu relógio conta-me que foi 3’19/km. Certamente, mais uns metros de curvas por fora e afins. Pessoalmente, não podia esperar mais. Mais experiente do que em anos anteriores, não me deixei levar por inconsciências e entusiasmos e tentei sempre seguir o meu ritmo, independentemente do que acontecia à minha volta. Não ganhei para o susto quando vi o relógio a marcar 3’/km, mas garanti que continuava a respirar mais ou menos controladamente. Perdi algumas posições que já não consegui voltar a recuperar, mas estava cumprido o objetivo que traçara. Mesmo assim, são oito pontos para a equipa, visto o quarto classificado ser um corredor externo ao Troféu. Um pecúlio inédito, que jamais imaginei alcançar numa Milha.

Enfim, reconheço que nunca serei um galo-corredor, e que esse papel tem donos, bastante mais merecedores, para uma série de extensa duração. Os meus parabéns ao Carlos, ao Mário, ao António, ao Hélder e ao Marco, da Natureza Ensina, que concluíram a nossa série nos cinco primeiros lugares, preenchendo brilhantemente a totalidade do pódio de Veteranos II e os dois primeiros de veteranos III. Mas, também o Luís, o Nelson, eu e o Ricardo preenchemos nove dos 15 primeiros lugares da série com a camisola verde da Natureza Ensina. Nome científico: Accelerati incredibilus.

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publicado às 18:20

Excursão ao Barreiro

por JL, em 16.03.19

Domingo, 24 de fevereiro, oito horas da manhã. Um ligeiro vento fresco lembra-nos de que podíamos ter ficado na cama. Mas ali estamos no estacionamento à espera de nos encontrarmos com outros membros da equipa para depois fazermos uma pequena excursão de cerca de 30 km até Quinta do Braamcamp, no Barreiro, para corrermos menos de 4 km de corta-mato. Uma espiral de sensatez, portanto.

A prova, o 3º Corta-Mato da Academia do Korpo, correspondia à 5ª jornada do Circuito de Atletismo do Barreiro, e A Natureza Ensina conseguiu aproveitar um fim-de-semana de pausa noutras competições para levar um pequeno coletivo de 13 atletas a esta competição. Uma oportunidade para treinar em ritmo mais intenso, em piso de corta-mato, mas sem qualquer pressão. Daí embarcar nesta simpática excursão.

Mais uma vez sem grandes objetivos competitivos, deu para fazer qualquer coisa como 14’40, nos 3,8 km do percurso, sem certezas, pois esqueci-me de parar o relógio… O suficiente para conseguir ser 7º, num escalão dominado por atletas do GDC Estrela Negra e do GDR Ribeirinho. Entre a prestação discreta da equipa, destacaram-se excelentes prestações femininas, com dois pódios (um 1º e um 3º lugar), no escalão de Veteranas II

Enfim, se não estivesse estado no Barreiro também não teria passado a receber publicidade em série, numa conhecida rede social, sobre o debate político sobre o futuro dos 21 hectares em frente ao rio da Quinta do Braamcamp…

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publicado às 18:24

Correr mais verde

por JL, em 27.01.19

 

Existem coincidências curiosas. Às quais gostamos de atribuir significados. A minha primeira prova com a camisola verde da associação “A Natureza Ensina” foi hoje a 4ª Eco-Run D. Paio Peres, a contar para o 32º Troféu de Atletismo do Seixal. Por outras palavras, uma dupla estreia na única equipa de clube com génese ambiental na única prova do Troféu com designação eco.

A singularidade deste facto remetia-me imediatamente para derivações sobre outras terminologias recentemente adotadas no running, como as designações “Evento verde” ou “EcoX”, que algumas empresas organizadoras de provas têm associado recentemente às suas provas. Ou seja, o verde parece estar entre as preocupações do universo de atletas, empresas e outras instituições ligadas ao running, sendo estes designativos o reconhecimento do impacto ambiental dos eventos desportivos, nomeadamente porque “têm implicado a utilização de materiais plásticos e de embalagens em grandes quantidades”, consumo de papel e desperdício de água, além de problemas de mobilidade e de emissão de dióxido de carbono.

Além de simples pedagogia social, procurando que as mensagens transmitidas produzam um impacto positivo na sociedade, as empresas organizadoras de provas anunciam um conjunto de medidas como folhetos promocionais em papel reciclado, envelopes com chips e dorsais no mesmo tipo de papel, utilização de carros elétricos, recolhas seletivas de lixo com ecopontos e disponibilização de pontos de água para reabastecimento. Em simultâneo, solicitam aos participantes a promoção de comportamentos mais ecológicos, como levantar os dorsais com comprovativo eletrónico em vez de papel, levar um saco reutilizável para recolher o kit, levar uma garrafa de água, depositar o lixo nos caixotes, partilhar transportes ou usar transportes públicos. Tudo medidas salutares, umas mais válidas do que outras, que convidam a uma progressiva mudança de comportamentos. Mesmo que o impacto efetivo das medidas seja certamente insuficiente, a transmissão destas mensagens terá sempre um efeito entre aqueles que as recebem, podendo ser um importante contributo para a mudança necessária.

Daí que aplauda sem reticências a postura de entidades organizadoras e aproveite para dar uma modesta achega em relação à recolha de plástico durante as provas. Tem-se observado, cada vez com maior frequência, a presença de ecopontos de recolha de plástico próximos das zonas de abastecimento de água. Uma medida positiva, mas demasiado circunscrita espacialmente. Para muitos atletas, especialmente em dias de maior calor, não é bastante dar um ou dois goles de água num intervalo de uns 50 metros, tendo de levar consigo a garrafa durante um intervalo de percurso, e esses não voltam a encontrar nenhum ecoponto, a não ser que exista um ponto de abastecimento. Assim, seria uma medida bastante válida a colocação de ecopontos em pontos intermédios, por exemplo a 2km a 2,5km do abastecimento, permitindo que os atletas se desembaraçassem dos recipientes que ainda possam ter na sua posse sem terem de os arremessar para o chão. Enfim, fica a ideia.

De novo de regresso à 4ª Eco-Run D. Paio Peres, organizada pelo Grupo Futsal Amigos da Encosta do Sol, para dizer que pessoalmente a prova não tem muito para contar. Partia no grupo que agregava os escalões de veteranos II, III e IV, e sabia que tinha pela frente três voltas grandes, num total de 4450 metros, sem grandes aspirações competitivas. Integrado num escalão com ótimos atletas, contava concluir entre 10º a 15º, com esperança de amealhar alguns pontos, devido aos participantes que contavam para a prova, mas que não estão inscritos para o Troféu Seixal.

Assim, apesar de uma partida um pouco rápida de mais, ao final da primeira volta tinha-me arrumado atrás dos atletas dos lugares cimeiros, que sabia nunca conseguir alcançar, tentando manter-me nas posições imediatamente subsequentes. Algo que foi sendo conseguido, embora com mais esforço do que previra. Entre dois lugares ganhos e dois perdidos, o segundo deles na última subida, ainda tentei recuperar a posição na descida para a meta, com o sprint possível com umas pernas que nunca se deram bem com a velocidade, chegando a impensáveis 2’50/km, mas insuficientes para a resposta do outro atleta. Ainda assim, as contas ficaram acima das expectativas. Afinal, conseguira ser 9º classificado no escalão de veteranos III, alcançando uns inesperados 7 pontos no Troféu. Resultado acima das previsões.

Para a semana há mais, com o 8º Corta Mato do Núcleo de Naturais e Amigos da Vila de Cabeço de Vide, no Parque do Serrado, Amora. Mais uma vez uma prova num tipo de piso que me agrada, pelo menos enquanto não chove, embora tenha sido avisado que os desníveis são mais acentuados e prolongados.

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publicado às 22:34


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