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Portas abertas para a maratona

por JL, em 20.11.19

No ano passado, o Grande Prémio da Cruz de Pau teve um desfecho inesperado depois de um episódio rocambolesco a meio da prova. Parte do percurso decorre dentro do recinto da Festa do Avante. Contudo, nessa edição esqueceram-se de abrir o portão de saída, tendo os atletas da frente ficado retidos alguns minutos dentro recinto, desvirtuando-se totalmente a classificação. Em protesto, a partir desse ponto os participantes seguiram agrupados até à meta, tendo sido anulados os resultados da prova.

Para mim, esse foi um desfecho maçador. Tinha feito a Maratona de Lisboa, sentia-me em boa forma, e, no momento em que a prova foi interrompida, ainda estava próximo do grupo da frente. Aliás, penso que até esse momento era a prova do Troféu de Atletismo do Seixal que melhor me estava a correr.

Por isso, este ano, apesar de estar a salvaguardar-me para a Maratona do Porto, guardava uma certa vontade de desforra. Consciente destes sentimentos pouco recomendáveis para a devida gestão pré-maratona, arrumei-me no final da zona de partida, completamente cercado por todos os lados, sem quaisquer possibilidades de aceleração. Assim, mais não pude fazer do que correr lentamente nos primeiros metros até um ponto mais desafogado. Sabia que não me deveria exceder, para não me desgastar desnecessariamente antes da maratona. Bem pensei, mas pouco cumpri. Não que tenha entrado em loucuras ou acelerações excessivas, mas os 31’45 apontam para um ritmo que ultrapassa largamente o meu objetivo inicial. Vale pelo 6º lugar no escalão e pelos pontos que significa para A Natureza Ensina no Troféu de Atletismo do Seixal.

No entanto, o objetivo era outro e estava aí à porta: a 17ª Maratona do Porto.

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publicado às 09:45

107 camaradas

por JL, em 01.10.19

Digam 107. Três dígitos. Foram 80 atletas e 27 caminhantes. Os números impressionantes que, somados, revelam o total de participantes na Corrida da Festa do Avante que envergaram a camisola verde de A Natureza Ensina. Foi mais uma jornada de clorofila que irrompeu nas ruas da Amora e do Seixal.

Para a história fica ainda um sexto lugar, por equipas, com 267 pontos, entre 55 equipas completas. Carlos Arieiro (28º), Bruno Loureiro (51º), Alexandre Tiago (57º), Carlos Cerqueira (63º) e José Neves (68º) completaram o quinteto que assegurou os excelentes resultados coletivos. Em femininos, Dina Oliveira alcançou ainda o triunfo em veteranas II.

Na geral, Nelson Cruz, do Clube Pedro Pessoa, somou seu quarto triunfo na prova, com 34:59, enquanto que Joana Fonseca venceu em femininos (40:50). Por equipas, triunfou o Vitória de Setúbal, com 28 pontos. A classificação individual e coletiva está disponível em joaolima.net, onde também é possível encontrar um historial dos vencedores desta competição e, desde 2005, as classificações completas.

No entanto, o mais importante na Corrida da Festa, realizada este ano no dia 8 de setembro, é representar um retorno à competição depois da paragem de Verão. É sobretudo isso. Uma oportunidade para reencontrar muitas caras conhecidas e voltar a sentir um pouco de adrenalina competitiva, ao mesmo tempo que se desenferrujam os músculos. Assim foi para mim também.

Pessoalmente, foi um debilitado regresso às provas. Depois de um Verão inconstante em que ficaram por conhecer a luz do dia mais treinos planeados do que aqueles que efetivamente tiveram a oportunidade de visitar o mundo cruel, dei por mim enganado a pensar que afinal não estava assim tão mal, ao fim de meia-dúzia de treinos mais conseguidos. Mas a montanha-russa da vida encarregou-se de me desafiar com uma ligeira gripe a meio da semana que precedeu a prova. Quatro dias parado com dores de garganta, espirros e fungadelas, mais uma jornada de viscosidades dignas de um qualquer filme constante do programa do festival de cinema de terror MOTELX e chego a Domingo amarfanhado e fatigado por uma noite quase sem dormir.

Por isso, depois da inicial jornada de reencontros e confraternização, tratei de fazer a prova com cuidado e sem as pouco aconselhadas euforias iniciais. Parti lentamente, embrulhado no meio pelotão, completando o primeiro quilómetro em 4’50. Depois, aproveito o desanuviamento para acelerar até uma média final de 4’20.  Com exceção de uma ligeira aceleração numa zona de descida, no Seixal, todo o percurso foi realizado entre 4’14 e 4’20. Acabou por ser uma agradável jornada de corrida, apesar da semana antecedente não ter ajudado.

Certezas não temos, mas a Corrida da Festa surge como uma excelente possibilidade de regresso à competição depois das férias de Verão, no próximo ano. Veremos se se confirma.

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publicado às 12:18

Uma semana depois, aí estamos de regresso à mesma marginal do Seixal para disputar a 13ª Corrida da Baía da SFOA (Sociedade Filarmónica Operária Amorense), 11ª prova do Troféu de Atletismo do Seixal, depois de termos corrido a última Milha Urbana, sete dias antes.

Foi um regresso surpreendentemente marcado pela novidade. Uma conjugação difícil de satisfazer, que se explica pela minha estreia nesta Corrida da Baía e pela descoberta deste histórico clube, fundado em 1898 por um grupo de operários garrafeiros.

A pensar nessa dupla descoberta do clube e da prova, deixo três pequenas notas sobre as coletividades e a competição:

1. Franquear as portas do Cine Teatro Amorense, sede da SFOA, e descobrir a sala de espetáculos, com o palco elevado e o ecrã de cinema é ser tocado por uma nostalgia de um tempo e realidade que já praticamente não vivi e do qual tive apenas um breve vislumbre. Refiro-me às inúmeras coletividades urbanas espalhadas pelos bairros das grandes e médias cidades, que aglutinavam as pessoas para uma vivência de partilha coletiva e para um sentimento de pertença local. Por isso, talvez vítima de demasiada imaginação, assim que entrei naquele espaço, pareceu-me sentir aquelas paredes impregnadas de histórias: Histórias de pessoas e emoções que ali dançaram, de olhos postos num futuro, dos jantares e festas, dos filmes que ali foram vistos, entre risadas ou de lábios mordidos a conter as emoções, e das grandes assembleias e debates que galvanizaram argumentos e discórdias. Não é difícil adivinhar os dias divididos entre as bancadas da Medideira, para ver o Amora FC, e os salões frescos do SFOA, para jogar à Sueca, comer gelados de caramelo, discutir o campeonato de futebol e ver o filme da noite.

Assisti ainda a um resquício dessa realidade nas ruas de Almada, povoadas de pequenas e grandes coletividades, algumas com mais de uma centena de anos, que definhavam lentamente, desfazendo-se de património entre um perfume nostálgico de outra era e a desconsideração jocosa das gerações mais jovens. Entrei com a minha mãe na sala de cinema da SFUAP para ver o ET, onde hoje não restam mais do que tapumes envergonhados a esconder ruínas, e assisti com tristeza ao fim de uma era de colossos associativos como dinossauros à beira da extinção. Agrada-me observar os casos que ludibriaram, pelo menos parcialmente, esse destino.

2. Sobre a corrida: A partida acontece em frente da porta da sede da SFOA, numa descida até à baía, onde se vira à esquerda, em direção ao recinto do Avante, para uma breve incursão de uma curta volta, com imediato retorno e passagem junto à Medideira até quase à zona de partida. Depois, é seguir a marginal lado a lado com a baía, primeiro do lado esquerdo, contornando toda a baía até ao outro lado, até ao ponto de retorno situado junto da Arrentela, mais ou menos onde estava a meta da Milha Urbana do Seixal, e regressar, agora com a baía do lado direito, contornando outra vez até à Amora, até reencontrar a esquina da rua da sede da SFOA e galgar alguns metros de subida até à meta, num total de 8,8 km.

Como sempre tenho vindo a fazer nesta temporada, arrumei-me numa segunda linha, atrás dos atletas mais rápidos. Aquele ponto que permite medir distâncias à distância, longe da frente, mas suficiente para ter pontos de referência. Parti rápido. Mais do que pretendia. Abaixo de 3’30, na parte do percurso mais difícil. Mas cedo estabilizei num patamar mais confortável (3’45). Depois da confusão e indefinição inicial, com os atletas mais arrumados, consegui ainda ganhar quatro ou cinco lugares antes do quilómetro 3. A partir daqui o objetivo era estabilizar num ritmo confortável e tentar guardar forças para um final mais intenso. Infelizmente, mais uma vez dei por mim a correr sozinho. Mais rápido do que os que me seguiam, mas distante do grupo da frente.

Com o passar dos quilómetros permanecia à distância de um grupo de três atletas que me pareceram demasiado rápidos no início. Mas, a pouco e pouco, as distâncias começaram a reduzir-se. Rodava mais ou menos a 3’55, com oscilações. O grupo dos três começou a partir-se, ficando dois atletas mais atrasados, enquanto o terceiro se aproximou da frente. Senti que aqueles dois eram a minha deixa para o tal esforço extra. Progredi com mais intensidade, ultrapassei o mais atrasado, mas o segundo não quebrou e seguimos a par até ao final. Procurei desferir alguns ataques, mas as pernas não me deixavam dar mais do que uns breves safanões sem continuidade. Ao meu lado, ele parecia responder com facilidade. Insisti no último quilómetro, sem sucesso, e senti as pernas a fraquejar com um ligeiro vento contra. Ele fez um derradeiro ataque pouco antes da curva e percebi que não conseguiria acompanhá-lo. Os dois segundos de diferença final atestam as diferenças. Terminei os 8,8 km em 34'20.

3. Nessa manhã de sol percebi os comentários de outros atletas que afirmavam ser esta a prova que preferiam na Troféu de Atletismo do Seixal. A Corrida da Baía é uma prova muito interessante. Bem localizada, num cenário muito agradável, repleto dos encantos da baía e de marcos de história local, é também uma prova muito rápida e competitiva. Permite rolar com uma intensidade elevada durante a maior parte do percurso e atrai alguns atletas de um nível bastante competitivo, atendendo ao amadorismo. A Natureza Ensina triunfou coletivamente nesta competição e garantiu o melhor somatório de pontos para o Troféu de Atletismo, além de mais de uma dezena de pódios individuais. Uma jornada de sucesso em fim-de-semana comemorativo do 7º aniversário do atletismo desta associação de génese ambiental, que se encontra dedicada ao atletismo e que já entrou nos meandros da formação e do desporto federado. Nunca sabemos o que o futuro nos reserva, mas estes passos parecem estar a ser dados com firmeza e em chão suficientemente sólido para assegurar um futuro longo.

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publicado às 10:41

Mais uma milha

por JL, em 12.06.19

Esta temporada de pouco tempo disponível e algum desleixo competitivo, leva-me a um contínuo de provas que não seriam as minhas escolhas habituais. Mas, assim, em piloto automático, sem preparar muito bem nenhum plano competitivo, vou riscando um visto breve em provas que fazem parte do calendário competitivo de torneios locais, apenas para manter a forma e descarregar adrenalina.

É por isso que alguém que afirma não apreciar provas rápidas e curtas soma a terceira Milha em mês e meio. Depois da Milha de Corroios e da Alberto Chaíça, no Monte da Caparica, chegou a vez da Milha Urbana do Seixal, no passado dia 2 de junho. Uma prova especial, por ter sido a minha primeira experiência nesta distância. “Traumatizante” como afirmei antes. Mas, ainda assim um marco na linha das memórias desportivas pessoais.

Três anos depois, regressar à Milha Urbana do Seixal era antecipado de uma forma completamente diferente. Agora, já sei no que me vou meter em termos de cadência da corrida e também já conheço um pouco melhor o meu corpo, que ele próprio está diferente, depois destes três anos de provas frequentes. Neste momento, a corrida e a competição são uma parte da rotina. Modesta, mas presente. Também já conhecia o percurso e até os outros atletas são já caras habituais nestas andanças e todos temos uma noção do ritmo de cada um de nós e da forma como nos arrumaremos na lista da classificação final.

O que dizer da prova? Não é fácil escrever sobre uma competição que decorre freneticamente em pouco mais de 5 minutos sem fôlego. Sim, é bonita a marginal do Seixal. Plana, aberta sobre a baía, solarenga naquele dia primaveril e quente. Mas, naquela sofreguidão de conquistar metros por debaixo das solas, nada disso existe. Mesmo que pareçamos mover-nos em slow motion para quem assiste da beira da estrada. Para nós, somos como bólides supersónicos, máquinas de músculos latejantes e respiração ofegante. Existem apenas pernas, pulmões, asfalto e um ponto fixo assinalado por um pórtico, onde tentamos chegar rapidamente.

Para mim, foi uma boa prova. Controlada. Relativamente rápida. Suficientemente astuta para ultrapassar na segunda volta alguns atletas que se encontram no mesmo nível competitivo que eu. Fechei com 5’28, de acordo com o cronómetro oficial. Ou seja, menos 25 segundos do que em 2016, na primeira e até aqui única participação nesta corrida. Impossível querer mais.

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publicado às 10:41

"Accelerati incredibilus"

por JL, em 14.04.19

Para quem não conheça ou não reconheça, o pseudolatim do título vem emprestado da série de animação “Road Runner”, conhecida em Portugal por “Bip Bip” e no Brasil por “Papa-Léguas”, quando no genérico inicial as personagens são apresentadas num plano fixo, com uma legenda com o “nome científico” entre parêntesis. Esta cientificidade foi modificada ao longo das diferentes temporadas da série, mas quase sempre com nomes reconfortantemente cómicos e desconcertantes. Que melhor introdução para esse foguete das provas de atletismo local, que é a Milha, do que o generoso exemplo do galo-corredor americano que celebra 70 anos em 2019?

Três anos depois, regressei à Milha Urbana de Corroios com um nó no estômago e um olímpico ponto de interrogação a coroar a frase: O que é que eu estou a fazer aqui? Sou um Accelerati vulgaris, não gosto de provas rápidas, sinto-me um coiote, tenho outra prova amanhã ou ainda me vou lesionar, foram alguns dos pensamentos turvos que me ocorreram naqueles minutos iniciais de deriva pelas ruas de Corroios. Mas depois, uma cara conhecida aqui. Outra ali. Uns cumprimentos aqui e ali. Mais umas provas que estão a acontecer e das quais vemos um bocado. Depois, aquela multidão de gente de camisolas verdes e tudo acaba por se arrumar no seu sentido. Então, recordo-o com clareza: decidi vir a esta prova para voltar a correr pela Natureza Ensina e ajudar a equipa com alguns pontos modestos, e também para reencontrar caras que já não via há algum tempo. Enfim, límpido. Mesmo que signifique algum empeno nos 20 km Marginal...

Isto de correr em equipa tem muito de gregário, social e até qualquer coisa de tribal. Para quem não sabe sobre o que os corredores falam antes e depois das provas, que será a larga maioria da população mundial, aviso que também não o desvendarei. Deixo apenas a promessa de um dia destes editar um “Life of Runners”, ao estilo de David Attenborough, para desvendar as folhagens opacas que escondem os comportamentos desse estranho mamífero gregário que se aglomera socialmente em grupos de cores idênticas e que repete regularmente a bizarria de percorrer em grupo e em passo tão acelerado quanto possível um itinerário idêntico, às vezes circularmente, até um ponto em que todo o grupo interrompe o percurso e recomeça a socialização e hidratação. Um estranho comportamento, de aparência vagamente migratória, mas que pode encobrir outras razões que apenas o avanço científico poderá descortinar. Não perca: brevemente no seu computador…

Enfim, de regresso à Milha, depois deste devaneio de contornos histórico-televisivos, fiquei muito satisfeito com um 5º lugar no escalão, com o tempo de 5’35. De acordo com a estimativa oficial, corresponde a qualquer coisa como 3’28/km, mas o meu relógio conta-me que foi 3’19/km. Certamente, mais uns metros de curvas por fora e afins. Pessoalmente, não podia esperar mais. Mais experiente do que em anos anteriores, não me deixei levar por inconsciências e entusiasmos e tentei sempre seguir o meu ritmo, independentemente do que acontecia à minha volta. Não ganhei para o susto quando vi o relógio a marcar 3’/km, mas garanti que continuava a respirar mais ou menos controladamente. Perdi algumas posições que já não consegui voltar a recuperar, mas estava cumprido o objetivo que traçara. Mesmo assim, são oito pontos para a equipa, visto o quarto classificado ser um corredor externo ao Troféu. Um pecúlio inédito, que jamais imaginei alcançar numa Milha.

Enfim, reconheço que nunca serei um galo-corredor, e que esse papel tem donos, bastante mais merecedores, para uma série de extensa duração. Os meus parabéns ao Carlos, ao Mário, ao António, ao Hélder e ao Marco, da Natureza Ensina, que concluíram a nossa série nos cinco primeiros lugares, preenchendo brilhantemente a totalidade do pódio de Veteranos II e os dois primeiros de veteranos III. Mas, também o Luís, o Nelson, eu e o Ricardo preenchemos nove dos 15 primeiros lugares da série com a camisola verde da Natureza Ensina. Nome científico: Accelerati incredibilus.

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publicado às 18:20

Ando às voltas com a literalidade. Olho para o título e penso-o de forma literal, mas também, até certo ponto, figurada. Pois, por “primeira Milha” não quero remeter para os primeiros passos, corridas ou treinos, de modo figurado, ao estilo de “calcei as sapatilhas e saí de casa para uma primeira milha à volta do parque”, conforme é comum em vários textos sobre corrida, mas sim efetivamente para a prova de Milha. O 1,60934 km da milha terrestre. Aquela distância que faz parte de “todos” os troféus de atletismo por esse país fora. Mas, por outro lado, como facilmente se percebe, a inconsciência do título não se refere a uma qualquer perda súbita e temporária de consciência nem tão pouco à psicanálise, mas sim a uma irreflexão. Uma incapacidade de antecipar e refletir sobre as características e dificuldades de uma atividade. Nada que me tire o sono.

No entanto, dormi mal na noite antes da primeira prova de Milha. A primeira de uma longa lista de duas. Não é que fosse um corredor inexperiente. Já corria há cerca de dois meses e esta era a minha sexta prova, numa precipitação de experiências diferentes de quem acaba de descobrir um brinquedo novo (3x10km, 15km, 3km).

Mas, como dizia antes, dormi mal. Cometi o erro de não parar de imaginar como seria correr uma prova tão curta. Dez dias antes, conseguira superar a barreira dos 4’/km na primeira prova de 3km do Noites Quentes do Restelo 2016 (11:51). Na minha cabeça parecia-me óbvio que os 1,609km da milha seriam ainda mais rápidos e imaginava-me a “voar” desde a partida até à meta. Poucos minutos em aceleração constante. Seguro e de sorriso nos lábios. Em parte, não estava distante da verdade, mas os 1,609km permitem-se a muitas cambiantes durante aqueles breves minutos.

A cobaia foi a XXIV Milha Urbana da Baía do Seixal, que contava para o Troféu Seixal. Quando me inscrevi desafiaram-me a participar pela Casa do Benfica no Seixal. Outra estreia. Pela primeira vez ia correr em representação de um clube. Algo que aumentava ainda mais a pressão dessa primeira vez. A quinta primeira vez em mês e meio: primeira corrida, primeiros 10 km, primeiros 15 km e primeiros 3 km.

No dia da prova, depois de receber o precioso dorsal, preocupei-me em aquecer bem. Sabia, pelo que tinha lido e não tanto por experiência própria, que as provas mais rápidas exigem um melhor aquecimento, pois requerem rendimento imediato e não queria quebrar logo na partida. Assim, procurei iniciar devagar e adensar os exercícios com uma gama alargada de movimentos, em progressiva aceleração. Uma amalgama de movimentos mais ou menos de aquecimento, resultantes de um misto de aprendizagem com os monitores do ginásio, leituras avulsas e memórias longínquas do futebol.

A prova corria-se por escalões como é habitual nestas distâncias e em cima da linha de partida juntavam-se os principais favoritos. Arrumei-me numa segunda ou terceira linha do lado direito e recapitulei o objetivo: arrancar rápido e tentar acompanhar minimamente o ritmo nos primeiros metros. De seguida, gerir um pouco na zona intermédia e fazer um forcing na segunda metade. Tantos planos para tão poucos recursos… A explosão do tiro de partida pôs em marcha uma avalanche de adrenalina que se precipitou no asfalto. Para mim, bastaram cinco segundos, talvez nem tanto, para perceber que o ritmo era demasiado rápido para as minhas competências. Mesmo assim, queria que o fosso não fosse demasiado grande e fiz um esforço para impor velocidade. Mas era demasiado intenso. Ao fim de 500 metros já só pensava na meta e já nem a classificação interessava. Bastava-me um pouco de ar... “Corri” sem forças os últimos metros, deixando-me ultrapassar por dois ou três atletas mais astutos e suspirei de alívio com a chegada. Descobri que 1,609km podem ser muito mais desgastantes do que 10km. Completei o percurso com modestos 5’53 e percebi que não tinha futuro na velocidade. Nunca mais!

Dois meses depois, na XI Milha Urbana de Corroios, esqueci a decisão algo precipitada e repeti a distância em 5’46, na segunda das duas experiências na Milha. Um pouco mais rápido, mas igualmente sofrido, o registo de Corroios deixou-me ainda mais consciente dos meus poucos recursos para estas provas rápidas, decidindo-me a adiar para mais tarde outras participações, mas sem vontade de desistir. Contudo, umas vezes por isto e outras por aquilo, e ainda mais outras por aqueloutro, nunca mais tive disponibilidade voltar a correr esta distância. Veremos quando se dará o regresso… Será 2019? A XIII Milha de Corroios está à porta…

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publicado às 10:07

Não sei se lá em cima está algum moinho, por uma questão de dioptrias que me impede de o confirmar, mas senti nas pernas e confirmei no relógio que a 33ª edição do GP de Carnaval do Alto do Moinho teve três quilómetros de subida bastante exigente. Primeiro, entre os 0,5km e os 2km e posteriormente, na segunda volta, repetiu-se o mesmo percurso entre os 4,5 e os 6km. Um terço de prova muito seletivo, a dividir cedo o pelotão.

Como em anos anteriores, a prova, com organização do C.C.R. do Alto do Moinho, conseguiu reunir um naipe de atletas interessante, para além do habitual pelotão do Troféu de Atletismo do Seixal. Na frente, o duo Marco Miguel e João Mota, em representação do CATA – Clube de Atletismo da Amora, assumiu as despesas da corrida e cavou um fosso de alguns segundos em relação aos perseguidores. No final, Marco Miguel assegurou o triunfo, com 30’09. Menos um segundo do que o colega de equipa. O pódio ficou completo com Plácido Jesus (30’40), também do CATA. No setor feminino, Laura Grilo (CATA – Clube de Atletismo da Amora) destacou-se em relação à concorrência, com 35’39. No segundo e terceiro lugares ficaram Amélia Costa (39’25) e Inês Marques (39’49), ambas do C.C.R. Alto do Moinho. Por equipas, venceu a equipa da “casa”, o C.C.R. Alto do Moinho, com 349 pontos, seguido de A Natureza Ensina, 171 pontos, e CATA – Clube de Atletismo da Amora, 135 pontos. A prova principal contou com 576 atletas, num total de 637 participantes em todas as provas, divididos em 20 escalões, desde benjamins B, infantis, iniciados, juniores, seniores até aos veteranos 7.  A classificação encontra-se disponível em JoaoLima.net, assim como um arquivo de resultados anteriores.

Pessoalmente, recordava-me de há dois anos ter feito esta prova e de ter penado a bem penar para alcançar 39’29 bastante suados. Este ano, um pouco mais bem preparado, foi possível retirar alguns minutos a essa experiência até aqui única, concluindo em 35’47. Mais uma vez parti mal, muito atrasado, envolvido no meio do pelotão e sentindo necessidade de esforço redobrado para ganhar espaço nas posições intermédias. No entanto, a seletividade da subida ajudou a assegurar um bom posicionamento. Como antecipava a dificuldade da prova, procurei sempre poupar energia para as subidas. Apesar disso, a segunda volta foi feita num registo consideravelmente mais lento. Sem grandes perdas de lugares, com exceção de um pequeno pelotão de camisolas verdes de A Natureza Ensina que corriam num registo mais tático e passaram por mim como se corresse em câmara lenta num videoclipe dos anos 80.  

Enfim, um Grande Prémio de Carnaval fora de época e sem máscaras, a não ser o colorido mais berrante de alguns tons que emprestam alegria às camisolas do running.

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publicado às 22:43

"Penso adesivo", mas não existo

por JL, em 05.02.19

Recordo-me de, há alguns anos, discutir nas aulas de jornalismo a dificuldade de se escrever um bom título. A titulação é uma arte exigente e difícil. É por ter estado atento a essas aulas que me deixam alguma nostalgia, que posso afirmar com convicção que o título acima não é um bom título. Não sei se é mau… Mas bom não é de certeza.

É que tomar de empréstimo a máxima cartesiana é meio caminho andado para ser interpretado como pretensioso e afastar alguns leitores, incompatíveis com a filosofia ou com o próprio Descartes. Depois, porque realizar um trocadilho humorístico com essa máxima é, na melhor das hipóteses, algo de gosto muito duvidoso, e assim uma forte possibilidade de afastar outros leitores, que apreciam filosofia e o próprio Descartes. Por isso, sobram apenas a família e alguns amigos como únicos indefetíveis leitores… Mas talvez já regressemos ao título.

Enfim, corredor avisado não comete os mesmos erros. Comete outros. Ao pisar a relva e terra batida do Parque do Serrado, na Amora, para correr o 8º Corta-mato do Núcleo de Amigos de Cabeço de Vide, sabia que não estava na melhor forma nem tinha escolhido as melhores sapatilhas para o piso que ainda parecia húmido.  Por isso, depois de um arranque demasiado rápido na semana anterior, empenhei-me em partir em ritmo mais moderado e desfrutar dos confortos de uma manhã fria, mas solarenga. No entanto, o entusiasmo da corrida rapidamente apaga estes pensamentos mais avisados e, às duas por três, estava no encalço de mais um atleta, quando senti o pé direito tropeçar numa raiz sobressaída.

É um segundo que parece uma longa-metragem… A perna esquerda devia ter reagido rapidamente, encontrando o chão firme e o equilíbrio, mas onde é que estava? Provavelmente enrolada na outra, como dois fios de esparguete enamorados e à espera do dia 14…. Certo é que não sei a resposta e faltam-me provas sobre o que aconteceu. Pois, apesar de a prova estar repleta de fotógrafos, não encontro uma imagem do sucedido. Nada com o pé encalhado na raiz, nem com o voo desajeitado e de pernas torcidas e menos ainda com a aterragem forçada, sem graça nem elegância, na areia pouco delicada da pista. Uma absoluta invisibilidade. Terá acontecido? Terá sido imaginação? O cotovelo e a perna direita, que comprovaram a existência de atrito entre dois corpos sólidos, provaram-me que sim, exibindo-se artisticamente decorados com dolorosas escoriações de tom avermelhado.

Erguendo-me do pó, descobri ainda uma dor incisiva no quadricípite esquerdo, que quase não me deixava andar. No entanto, alguns passos descoordenados, mas embalados pelos músculos quentes da corrida, uma tentativa de aumento de ritmo razoavelmente sucedida e estava na pista outra vez. Meio coxo, combalido, a fazer caretas ainda mais feias do que é costume, até atravessar a meta. Aí, conselho amigo indicou-me o carro dos Bombeiros Voluntários da Amora, onde recebi prestável auxílio, traduzido em borrifadelas de antisséptico e “spray milagroso”. Prestem-se as devidas homenagens a esses heróis que são os bombeiros voluntários!

Mais tarde, em casa, li que o famigerado penso adesivo do título ajuda a cicatrizar de modo mais eficiente, reduzindo o risco de infeção, sendo um mito a ideia de que deixar feridas e arranhões a descoberto, ajuda a que este processo decorra mais rapidamente. Ignoro olimpicamente mais este conselho, porque com esta jornada não combinam adjetivos como “rápido”. Nem nos pensos…

Não sei em que posição terminei, pois não consegui ver as classificações. O meu relógio marcava 18’19 quando o desliguei após a chegada. O website do Troféu de Atletismo do Seixal não tem resultados disponíveis. Também não encontro informação dos organizadores da prova. E ainda aguardo que me enviem as classificações, mas sem sorte até ao momento. Parece que fiquei esquecido ou que não existo…

Falta ainda a explicação sobre o título... Ou não. Tirem-se as conclusões que se quiser. Ficamos com a dúvida cartesiana: "Puisque je doute, je pense; puisque je pense, j'existe".

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publicado às 11:24

Correr mais verde

por JL, em 27.01.19

 

Existem coincidências curiosas. Às quais gostamos de atribuir significados. A minha primeira prova com a camisola verde da associação “A Natureza Ensina” foi hoje a 4ª Eco-Run D. Paio Peres, a contar para o 32º Troféu de Atletismo do Seixal. Por outras palavras, uma dupla estreia na única equipa de clube com génese ambiental na única prova do Troféu com designação eco.

A singularidade deste facto remetia-me imediatamente para derivações sobre outras terminologias recentemente adotadas no running, como as designações “Evento verde” ou “EcoX”, que algumas empresas organizadoras de provas têm associado recentemente às suas provas. Ou seja, o verde parece estar entre as preocupações do universo de atletas, empresas e outras instituições ligadas ao running, sendo estes designativos o reconhecimento do impacto ambiental dos eventos desportivos, nomeadamente porque “têm implicado a utilização de materiais plásticos e de embalagens em grandes quantidades”, consumo de papel e desperdício de água, além de problemas de mobilidade e de emissão de dióxido de carbono.

Além de simples pedagogia social, procurando que as mensagens transmitidas produzam um impacto positivo na sociedade, as empresas organizadoras de provas anunciam um conjunto de medidas como folhetos promocionais em papel reciclado, envelopes com chips e dorsais no mesmo tipo de papel, utilização de carros elétricos, recolhas seletivas de lixo com ecopontos e disponibilização de pontos de água para reabastecimento. Em simultâneo, solicitam aos participantes a promoção de comportamentos mais ecológicos, como levantar os dorsais com comprovativo eletrónico em vez de papel, levar um saco reutilizável para recolher o kit, levar uma garrafa de água, depositar o lixo nos caixotes, partilhar transportes ou usar transportes públicos. Tudo medidas salutares, umas mais válidas do que outras, que convidam a uma progressiva mudança de comportamentos. Mesmo que o impacto efetivo das medidas seja certamente insuficiente, a transmissão destas mensagens terá sempre um efeito entre aqueles que as recebem, podendo ser um importante contributo para a mudança necessária.

Daí que aplauda sem reticências a postura de entidades organizadoras e aproveite para dar uma modesta achega em relação à recolha de plástico durante as provas. Tem-se observado, cada vez com maior frequência, a presença de ecopontos de recolha de plástico próximos das zonas de abastecimento de água. Uma medida positiva, mas demasiado circunscrita espacialmente. Para muitos atletas, especialmente em dias de maior calor, não é bastante dar um ou dois goles de água num intervalo de uns 50 metros, tendo de levar consigo a garrafa durante um intervalo de percurso, e esses não voltam a encontrar nenhum ecoponto, a não ser que exista um ponto de abastecimento. Assim, seria uma medida bastante válida a colocação de ecopontos em pontos intermédios, por exemplo a 2km a 2,5km do abastecimento, permitindo que os atletas se desembaraçassem dos recipientes que ainda possam ter na sua posse sem terem de os arremessar para o chão. Enfim, fica a ideia.

De novo de regresso à 4ª Eco-Run D. Paio Peres, organizada pelo Grupo Futsal Amigos da Encosta do Sol, para dizer que pessoalmente a prova não tem muito para contar. Partia no grupo que agregava os escalões de veteranos II, III e IV, e sabia que tinha pela frente três voltas grandes, num total de 4450 metros, sem grandes aspirações competitivas. Integrado num escalão com ótimos atletas, contava concluir entre 10º a 15º, com esperança de amealhar alguns pontos, devido aos participantes que contavam para a prova, mas que não estão inscritos para o Troféu Seixal.

Assim, apesar de uma partida um pouco rápida de mais, ao final da primeira volta tinha-me arrumado atrás dos atletas dos lugares cimeiros, que sabia nunca conseguir alcançar, tentando manter-me nas posições imediatamente subsequentes. Algo que foi sendo conseguido, embora com mais esforço do que previra. Entre dois lugares ganhos e dois perdidos, o segundo deles na última subida, ainda tentei recuperar a posição na descida para a meta, com o sprint possível com umas pernas que nunca se deram bem com a velocidade, chegando a impensáveis 2’50/km, mas insuficientes para a resposta do outro atleta. Ainda assim, as contas ficaram acima das expectativas. Afinal, conseguira ser 9º classificado no escalão de veteranos III, alcançando uns inesperados 7 pontos no Troféu. Resultado acima das previsões.

Para a semana há mais, com o 8º Corta Mato do Núcleo de Naturais e Amigos da Vila de Cabeço de Vide, no Parque do Serrado, Amora. Mais uma vez uma prova num tipo de piso que me agrada, pelo menos enquanto não chove, embora tenha sido avisado que os desníveis são mais acentuados e prolongados.

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